Mercado e Moralidade (1200 d.c.)

O que é preço justo?

“Homem algum deve vender uma coisa a outro Homem por mais do que ela vale.” [Tomás de Aquino]

        A multidão atingira o ápice da emoção, todos gritavam e celebravam incessantemente, plenamente satisfeito com o que acabara de ocorrer; como em uma vitória emocionante, o Comerciante William Le Bole em 1321 recebia a atenção de todos, enquanto amarrado a um cavalo era arrastado e linchado em praça pública. Motivo? Cobrava em seu comércio o preço integral dos pães, que propositalmente diminuíra o peso para que pudesse aumentar seus lucros. Seria este ato Medieval demais?
       

        A multidão comenta atônita, todos com olhares vazios não acreditam no que acabaram de noticiar, um grupo de comerciantes adulteram leite, alimento fundamental de qualquer criança, adicionando ao mesmo formol e soda cáustica; o principal objetivo é lucrar R$0,09 extra por litro comercializado. Justiça abre inquérito para averiguar irregularidade e multar infratores. Seria este ato Contemporâneo demais?

        Não, o lucro exorbitante, mesmo que com alto valor agregado nem sempre foi visto como algo a se comemorar, a precificação nem sempre foi livre e seguiu a mão invisível do mercado baseada nas leis da oferta e demanda; lucratividade era abordado como um tema moral, assim como a bela donzela desgarrada que se oferece a todos, lucros excessivos era visto como um pecado capital que envergonhava a sociedade e gerava entrada garantida para o inferno. Muito tempo se passou e a liberdade econômica prevaleceu, vivemos hoje em grande parte dos países, um liberalismo de mercado onde não só é invejado quem lucra mais, como é taxado como barreira para o progresso a regulamentação do lucro exercida pelo Estado.

        Estamos caminhando atualmente, assim como em 2008, para uma breve turbulência econômica; em períodos conturbados como este, onde o dólar sobe, as bolsas caiem, a inflação corrói e os juros aumentam, é comum iniciar-se o debate sobre a eficiência do Estado e a necessidade em diminuí-lo, abrindo espaço para que a iniciativa privada desempenhe certas funções com a eficiência que só os servidores não públicos são capazes de atingir. 

        Poucos entendem, que todos indicadores é um reflexo direto do liberalismo, onde o mercado colhe os frutos e o governo com o financiamento dos contribuintes prepara e semeia o campo; que um mercado sem regulamentação não pondera necessidade, tão pouco o direito ou a dignidade humana; o único objetivo é o lucro excessivo, que só pode ser alcançado com boa precificação da produção aliada a baixos salários. Ridicularizar o salário mínimo culpando o Governo, e ser a favor a uma política neoliberal; é tão contraditório quanto reclamar dos altos custos da saúde e educação e defender um Estado pequeno; caso considere um absurdo famílias inteiras morrerem de fome, como pode requerer um mercado onde o preço é ditado pela demanda? A proliferação de políticos corruptos criou a crença de que o Estado para nada serve, contudo não se engane, pois no mercado da imoralidade nem mesmo o consumidor é defendido pela iniciativa privada, e grande parte dos trabalhadores e cidadãos têm como única fonte de salvação na política.

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