Política: Esquerda ou Direita?

Desde que me interessei por política, li, vi e vivenciei diversas discussões ou colocações sobre a esquerda e direita. E apesar de certamente ter aprendido um pouco sobre história e a revolução francesa durante o ensino básico e médio, nunca cheguei a ter tão claro na minha mente a essência do que era um ou o outro.

Como quase tudo que se aprende na vida, o entendimento das coisas vêm da análise histórica, que mostra não só a origem dos problemas, bem como as mutações e distorções por que se passam os fatos no decorrer dos anos.

Retomando alguns estudos sobre a Revolução Francesa, aprendi que na França de 1750 já existia o conceito de Déspota Esclarecido, que era o monarca ou rei absolutista que percebia a necessidade da criação de leis mais igualitárias, e claro, do poder e capacidade do mercado que não deveria ser usurpado por uma aristocracia ociosa e improdutiva.

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Monarquia Absolutista e o Déspota Esclarecido

Contudo a consciência do monarca por uma política social mais igualitária e de menor intervenção no comércio não resultava em ações concretas, o que levou a burguesia e os pequenos comerciantes a depositarem sua esperança de mudança na capacidade do povo.

Foi neste contexto que nasceu o conceito de esquerda ou direita; enquanto a direita eram os aristocratas que queriam a continuidade do modelo monárquico, onde apenas os nobres com direito por nascença poderiam usufruir de luxo e riqueza; a esquerda representava o espirito empreendedor que queria direitos iguais e liberdade de comércio sem a submissão ou exploração do estado através dos impostos.

Para minimizar a situação, o estado permitiu a participação dos burgueses e representantes de cidadãos nas assembleias legislativas, que muito pouco conseguiram de sucesso em mudar o status-quo; a deterioração econômica e a fome levaram as pessoas as ruas, o que culminou na queda da Bastilha e consequente perda de poder do estado monárquico.

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Queda da Bastilha

Foi neste momento de manifestação, agitação popular e desestabilização política que se costurou um acordo, onde seria mantido o governo monárquico com um rei não mais soberano, que seria subjugado a um parlamento. Contudo, quem fizera a revolução não foram os burgueses que propuseram este acordo; os trabalhadores, camponeses, artesãos e pequenos proprietários de terras foram quem montaram as barricadas, e estes começaram a exigir seu acesso ao estado; a meia revolução que era satisfatória para a burguesia não fora digerida e representava um nó na garganta dos cidadãos que lutaram e deram a vida pela revolução.

No entanto, mesmo a burguesia e sua esquerda moderada no poder representavam um perigo para nações vizinhas à França, que ainda eram regidas pela direita aristocrática, houve então um cerco a França que com um exército fraco se viu obrigada a transformar todo homem em soldado e mesmo assim computava fracassos e mais fracassos no front de batalha.

Foi neste momento de incapacidade de garantir proteção que os sansculotes (artesãos, camponeses, trabalhadores e pequenos proprietários) retomaram para si o poder e restauraram a República Jacobina; estes defensores de uma revolução mais radical com direito de igualdade, liberdade e fraternidade a todos, conseguiram surpreendentemente resistir a invasão estrangeira, defenderam Paris, derrotaram 80% dos departamentos insurgentes franceses, expulsaram os alemães, os britânicos e acabaram por conquistar a bélgica.

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Revolução Francesa

Neste mesmo período instauraram o sufrágio universal e proclamaram a primeira constituição democrática, em troca implantaram um política de extremo terror para com os traidores e desenharam um controle geral de toda a economia.

Contudo esta liga jacobina que era sustentada pelos trabalhadores só durou enquanto manteve o direito a propriedade privada e a necessidade de união pela guerra era essencial; quando as políticas de centralização do poder não mais eram necessárias, houve divergência entre os cidadãos resultando em perda de poder dos jacobinos e consequente decapitação de seus principais líderes.

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Guilhotina e a República do Terror

Criou-se então um vácuo de poder na França durante o período de 1794-1799 que era dirigida pelo Diretório e que foi incapaz de instaurar um período de ordem; adicionalmente o temor pela instauração de um socialismo pelos jacobinos, que queriam não só uma igualdade perante a lei, mas também uma igualdade de vida a todos, abriram uma lacuna para que um general militar bem sucedido nas recentes batalhas tomasse o poder com a promessa de instauração da estabilidade política; surgiu então o novo imperador francês, Napoleão Bonaparte. A Revolução Francesa chegará a seu fim, a monarquia fora derrubada, e o novo estado burguês fora concebido.

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Napoleão Bonaparte

Acreditava-se que a França pararia por aí, contudo a constituição democrática francesa aliada a grande moral de um exército que havia vencido seguidamente diversas batalhas levaram o novo império a uma expansão nunca antes vista.

Lutar contra um exército que carregava consigo a democracia, liberdade, igualdade e fraternidade era impossível, não pela sua potência militar mas pelo simples fato de carregar consigo o sonho e ideal de todo soldado oponente, como lutar para com aqueles que trazem a liberdade? Inicou-se então uma onda de conquista por grande parte da Europa, onde a nova constituição francesa sangrou a direita aristocrática.

Nasceu então o mito de celebridade de Napoleão Bonaparte, um homem simples e não aristocrata que conseguiu por seu mérito próprio se tornar não apenas um general, mas o Imperador e maior conquistador de toda a Europa. Napoleão era a figura central de marketing do novo estado burguês, aquele que prometia a qualquer cidadão o céu como limite, desde que este se esforçasse, trabalhasse árduo e lutasse pelos seus sonhos.

Contudo com o mito do “self-made-man” surgiu a lenda da revolução popular, aquela que mostrou ao mundo que levar a população a uma organização social prometendo melhorias factíveis é capaz de criar um trem desgovernado, dificil de controlar e com efeitos colaterais indesejáveis.

Sumarizando o conteúdo em uma forma bem simples, chega-se a uma conclusão; são poucos os cidadãos de direita hoje, pois são raros aqueles que defendem a manutenção de uma aristocracia que deve viver em superioridade ou na luxúria por uma simples vontade divina ou direito de nascença pelo mero fato de possuir um sobrenome.

 

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Esquerda ou Direita? Economia e Costumes.

O que temos hoje de fato, são as pessoas de esquerda moderada, ou seja aqueles que querem uma liberdade e igualdade sem a perda retroativa histórica; e as pessoas de esquerda radical que querem uma liberdade e igualdade independente da necessidade de rompimento com o passado.

Enquanto os esquerdistas moderados querem manter o status-quo do modelo político concebido após a Revolução Francesa, os radicais querem uma continuação da revolução na esperança de que ela possa beneficiar de fato todos os cidadãos. A esquerda moderada da revolução francesa, virou hoje o que chamamos de direita, liberais ou até mesmo neoliberais.

A esquerda radical que não chegou a um consenso na república jacobina, continua até hoje se divergindo entre os sociais democratas que acreditam numa intervenção do estado para conter desigualdades e prestar assistência social, os socialistas que prezam pela igualdade de todos com um controle econômico e social concentrado no estado, os comunistas que prezam pela igualdade e liberdade de todos com um controle econômico e social do próprio proletariado e por fim, os anarquistas, que prezam pela liberdade e igualdade individual para todos abolindo qualquer forma hierárquica de controle que não seja de livre e espontânea vontade do próprio ser humano.

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