Jogue pelas Regras

Não se envolva em negócios fraudulentos

“Mark-to-market é como o crack. Nunca flerta com ele.” [Andrew Fastow]

Julian Dunkerton é o fundador e principal acionista da SuperGroup, uma bem-sucedida empresa de vestuário que lançou a marca SuperDry. Ao invés de seguir o caminho das grandes corporações e manipular sua contabilidade para escapar de algumas obrigações fiscais, optou por pagar os 30% de impostos fortalecendo o pilar moral na gerência contábil de sua companhia.

Gestores financeiros possuem duas grandes responsabilidades: registrar lucros e o fluxo de caixa bem como oferecer estimativas de gasto para que seja formada a estratégia corporativa; qualquer erro nestas responsabilidades, seja uma excessiva perda ou maiores lucros são um problema: perdas maiores levam a empresa a uma perda de caixa não estimada enquanto lucros maiores que os previstos significam que investimentos importantes para a expansão dos negócios não foram disponibilizados.

Assim como todo colaborador, o Gestor Financeiro é pressionado por bons resultados, contudo neste específico caso ele é o único responsável por apresentar e formatar os números; se este profissional não for íntegro e de forte personalidade é facilmente levado por outras áreas da empresa a praticar a contabilidade criativa ou arriscar o patrimônio corporativo no mercado financeiro para alavancar os lucros e o fluxo de caixa apresentando excelente resultados que não estão de acordo com a realidade. É comum, portanto, empresas utilizarem-se então do papel do auditor financeiro independente para que fiscalize os números conferindo-lhes idoneidade.

Apesar de parecer uma ciência exata, a contabilidade financeira corporativa não se repete em todos os lugares do mundo, muitos países possuem suas próprias regras baseando-se na IFRS (International Financial Reporting Standards). Muitos estudiosos são contra a flexibilização das regras contábeis, pois estas criam uma falsa sensação de crescimento o que leva a organização a se arriscar ainda mais. O debate entre a contabilidade por custos históricos (historical costs) versus a preço de mercado (mark-to-market) tem sido acirrada, enquanto a primeira avalia o patrimônio pelo preço de compra menos a depreciação a segunda permite atrelar o patrimônio a preços de mercado.

O risco em se utilizar mark-to-market está na alavancagem em tempos de bolha financeiras, pois a empresa percebe um aumento ilusório do patrimônio que é gasto de forma real e que não pode ser recuperado em tempos de quedas bruscas nas bolsas.

Apesar das regras financeiras existentes, bem como os prós e contras de cada uma, nada pode substituir a conduta ética do gestor financeiro. Regras internacionais são criadas para prover uma base de sustentação e orientação enquanto regras nacionais são criadas para prover regulação e segurança aos investidores; não obstante nenhuma delas é capaz de conter um contador indisciplinado e mal-intencionado.

A crise de 2008 foi recordista em mostrar as fragilidades contábeis de diversos bancos e empresas, bem como a alavancagem financeira de muitas organizações. No Brasil em específico, um caso se tornou especial. Àquele em que a Sadia, empresa de alimentos robusta e sólida viu seu setor financeiro com altas apostas em dólar, que estava passando por um momento de desvalorização permitindo auferir a companhia grandes lucros com a movimentação financeira.

Contudo a exposição era alta de mais, e com o estouro da bolha imobiliária nos EUA e a rápida valorização da moeda a Sadia viu suas apostas irem ladeira abaixo, o que exigiu um grande sacrifício do caixa, que finalizou com a fusão desta empresa com a sua concorrente Perdigão; que apesar de menor seja em faturamento, seja em marketing share; possuía fluxo de caixa e baixa alavancagem para enfrentar o momento de crise. Os rumores de que a Sadia iria fazer uma oferta pela Perdigão sofreram reviravoltas, e foi a segunda colocada quem se beneficiou com a guinada do mercado.

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