Xeque-mate Liderança

A família real está nua; os súditos munidos de Smartphone e redes sociais.

“Um líder é quem conhece o caminho, segue o caminho e mostra o caminho.” [John C. Maxwell]

 “Seja calmo e tenha um grande porrete; assim você vai longe.” [Theodore Roosevelt]

A existência de líderes e liderados fazem parte da essência humana, é um modelo social que sempre existiu, e muito provavelmente nos trouxe como espécie aonde estamos hoje. Não obstante, sofreu suas mutações ao longo da história, sendo influenciado pelo ambiente e a tecnologia. Atualmente vivemos tempos onde líderes e liderados foram colocados de lado, e se deu um grande destaque à liderança, ou seja, a capacidade de liderar; destaque este que está trazendo grandes consequências não apenas as organizações, mas principalmente a sociedade e o mundo onde vivemos.

A história da liderança é tão antiga quanto o primeiro relato humano, e claro, o interesse filosófico e científico tão eloquente quanto um sermão religioso. Há milhares de anos existia uma visão vigorosa e sonhadora de um líder. Para os Gregos, expressado nos pensamentos de Platão, surgiu a figura do Rei Filósofo, ou seja, a ideia de que qualquer homem poderia assumir uma posição de liderança desde que fosse lecionado e preparado adequadamente para tal. Para os Chineses, expressos no pensamento de Confúcio, um líder deveria ser alguém que inspirasse respeito e moral aos seus súditos.

Esta visão sonhadora mudou radicalmente com O Príncipe de Maquiavel; em sua visão pragmática, o líder não deveria se limitar a nada para alcançar o resultado de construir uma nação forte e poderosa. Thomas Hobbes viveu tempos diferentes, e em uma época onde uma guerra civil assolava a Inglaterra propôs que líderes e liderados deveriam formular um contrato social, onde os subordinados repassavam parte de seu poder ao Estado para que este mantivesse a paz e ordem social.

Importante notar que até o século XVII, apesar das diferentes noções de liderança, algo era claro e explícito: o líder deveria ser respeitado e seguido, cabendo aos liderados empenho e engajamento em alcançar os resultados propostos. Contudo, um fato histórico no século XIII abriu as portas para que o futuro da liderança fosse colocado de cabeça para baixo; a Carta Magna foi o primeiro “levante” vitorioso dos subordinados para com seus líderes, nela o Rei Inglês João se viu obrigado a dividir parte de seu poder com os barões para manter a governabilidade e lealdade destes.

Apesar da singela vitória, os liderados nunca conseguiram seu lugar ao Sol, contudo o pêndulo começou a mudar de lado quando a Revolução Gloriosa ocorrida no século XVII destronou o Rei Jaime II e abriu para sempre o precedente de que líderes não são a fonte do poder, e, portanto, podem ser derrotados por “meros” subordinados, se estes se organizarem.

Depois do ocorrido novos debates sobre a liderança foram alçados, John Locke propôs um contrato social que dividia o poder do líder com seus liderados, que agora poderiam destituí-lo do poder a força se necessário. Henry David Thoreau mostrou que a desobediência civil era uma proeminente arma para que liderados seguissem sua consciência desafiando as imposições dos líderes, enquanto Stuart Mill reforçou o direito individual, declarando que todos são livres para seguir seus próprios preceitos e ninguém deveria impor ao outro o que falar ou fazer.

Importante notar que o conflito entre líderes e liderados não ocorriam apenas na esfera Estado-Cidadão, todo este choque era uma realidade em várias instituições, desde a corporativa até a familiar. E que, apesar de toda a mudança histórica, onde líderes e liderados disputavam seu naco de poder; até meados do século XX um líder ainda desfrutava de grande poder, regalias e uma confortável e estável posição.

Contudo o avanço da tecnologia e a facilidade do acesso a informação começaram a expor de forma mais aberta a fragilidade das lideranças, seja através da corrupção na política ou da incompetência frente a concorrência no mundo corporativo. E foi desta exposição que a liderança começou a se tornar um fardo; passou a ser vista com desconfiança, improdutividade, corrupção, egoísmo; cujo único atrativo seriam os retornos financeiros.

Líderes passaram de uma posição de conforto para uma posição onde eram o foco de tudo que ocorre ao seu redor, sejam os acontecimentos para o bem, sejam estes para o mal. A liderança minguou e em seu lugar surgiu a dicotomia do bem e o do mal, o herói ou vilão, Deus ou o Diabo; e como toda dicotomia popular, esta foi incorporada ao mundo acadêmico e científico na persona do Gestor e do Líder, onde o Gestor é toda a personificação do mal que se pode perceber em um chefe, e o líder é toda a personificação do bem.

Como vivemos um modelo capitalista, não demorou para nascer a indústria da liderança, cujo segundo propósito foi vender o conceito de líder servidor; ou seja, àquele que ao invés de autoritário e dirigente deveria ser uma pessoa chave à suportar a equipe para que estes alcançassem os resultados. Digo segundo propósito, pois o primeiro, obviamente, foi o exato oposto, ou seja, um líder é aquele que consegue extrair das pessoas os resultados necessários independentemente da metodologia gerencial aplicada.

Contudo, a incompatibilidade entre a simpatia e o resultado tornaram os líderes pessoas falsas, que uma vez expostas deram grande margem a “fofocalização” desmedida; os defeitos eram expostos e exaltado de forma a diminuir cada vez mais seu poder, e mesmo que inconscientemente, trouxe cada vez mais a balança do poder aos liderados. A história possui centenas de relatos de grandes líderes que foram expostos ao ridículo, o que nos permite concluir que os líderes medíocres são “presas” ainda mais fáceis para seus subordinados.

Não por menos, hoje os cargos de liderança são os mais voláteis, e o que se percebe é que mesmo bons líderes podem ser expelidos desde que não agrade seus subordinados – um bom exemplo pode ser percebido na renúncia de dois grandes reitores da Universidade de Harvard. Grande parte desta volatilidade é sustentada pelas limitações dos líderes, sejam estas formais, informais, politicas, profissionais, pessoais ou até por falta de habilidade; e cada um destes limites trazem poder ao subordinado para que o subjugue e coloque sua capacidade em xeque.

Outro fator relevante que limita e permite diminuir o líder está baseado nas mudanças tecnológicas; com o aumento do acesso a informação e a facilidade em se compartilhá-la, ganhar a atenção para um fato ou até expor falcatruas, dissimulações e fraquezas se tornou tão simples quanto “um post e milhares de likes”. Temos como exemplo as revoluções que ocorreram na Ucrânia, na Primavera Árabe e no Brasil, todas estas, organizadas e orquestradas em redes sociais, por “anônimos” indignados com suas lideranças.

O fato, é que a divulgação de informação é um caminho irreversível, e tudo indica que só tende a aumentar; tendo consciência de que este aumento de exposição só tende a reduzir o poder e autonomia do líder, transferindo ainda mais poder aos subordinados, cabe a pergunta: Faz sentido investir tanto na existência de lideranças? Ou seria mais adequado despender energia na formação de liderados?

Independente se uma liderança política ou corporativa, hoje vivemos tempos onde o respeito ao líder só ocorre quando existe meritocracia; o que, para grande parte dos subordinados, se traduz em ética e eficiência. Ou seja, um líder merece ser seguido se este não comete enganos e atua de forma transparente e de acordo com os bons costumes, algo praticamente impossível de se alcançar em um mundo onde o resultado financeiro tem prioridade sobre as pessoas e onde a complexidade dos problemas é alta e seus erros inevitáveis. Talvez seja esta a razão dos movimentos de maior sucesso atualmente serem aqueles que não possuem um líder em específico e sim um grupo de várias pessoas que podem assumir o protagonismo e ter seu momento de exposição.

Surpreendentemente, e a despeito de todas as mudanças históricas e sociais; a indústria da liderança, ou seja, aquela que se julga capaz de formar líderes e que na década de 90 faturou, nada mais nada menos, que U$50 bilhões de dólares em treinamentos corporativos, continua pregando um modelo onde qualquer um pode se tornar um líder, ou pode se desenvolver como líder com um breve treinamento de meses, semanas ou até mesmo dias. Indo além, continua trazendo à tona o mesmo pensamento milenar, de que ser líder é o que importa e ser subordinado trata-se de algo mediano ou medíocre, afinal de conta apenas o líder é capaz de trazer o resultado.

A verdade nua e crua, é que a indústria e até mesmo academia da liderança, nada mais são que uma filosofia oca e sem resultados formais que comprovem suas metodologias; esta só foi ornamentada com publicações e debates racionais se tornando um material didático e comercializável. Esta construção toda foi concretizada pelo simples fato de que bilhões estavam à mesa, e ninguém gastaria tanto dinheiro sem um mínimo adequado de formalização e conteúdo progrmático.

O resultado desta indústria pode ser conferido com uma pesquisa de 2010, onde 7% dos empregados confiavam em seus empregadores, líderes ou gestores, que estes não acreditavam que estes eram honestos, éticos, tampouco competentes. E como um resultado tão pífio ainda continua a angariar investimentos de tão grande magnitude? A resposta é tão simples quanto arrogante: existe uma receita de bolo simples e mágica que qualquer um pode seguir, quase como um “hot pocket” da Sadia que pode ser aquecido e saciar sua capacidade de liderança em alguns segundos.

É muito mais barato tecer um livro sobre o que um líder deve ser ou fazer, nos mesmos moldes dos livros de autoajuda, que lhe promete encontrar o parceiro ideal ou ser um grande empreendedor; do que ensinar liderados a barrarem maus líderes ou auxiliá-los a aceitar os defeitos e erros dos honestos e competentes.

Se Baumann fosse falar sobre a liderança, provavelmente citaria a “liderança líquida”, destacando que o modelo de líder de Platão e Confúcio que exigia uma vigilância de si próprio, abertura e comprometimento ao aprendizado por uma vida todo fora substituído por resultados ao alcance de qualquer um em poucas semanas ou meses.

A indústria da liderança peca ao tentar traçar algoritmos ou receitas que os grandes líderes devem seguir, pois liderar, é estar em contínuo relacionamento com o aprendizado, é abrir a mente para tudo, e não focar em passos ou assuntos específicos. Entretanto, o que se ensina é o contrário, que liderar é se chocar ou colaborar com os liderados, enquanto na verdade o que se deve é lutar contra si mesmo para que se alcance um benefício maior para todos.

Liderar foi resumido a verbos como negociar, comunicar, gerenciar, gratificar, punir, orientar; e a verdade é que se trata de um assunto tão exotérico e carente de resultados científicos quanto a religião. E se algo tão frágil assim se vende tanto e tão fácil, é válido lançar a luz que se trata de uma busca ligada estreitamente ao mais íntimo desejo humano; ou seja, o desejo de ter poder, autoridade, influência e sabedoria. Vender liderança é um negócio irrecusável, pois quem fecham os contratos são líderes e isso é tudo que mais se deseja ouvir.

Líderes sempre existiram, continuarão a existir e dificilmente vão morrer. Contudo, é importante observar que, a liderança como a conhecemos hoje, muito provavelmente está com os seus dias contados.

 

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