Miopia Social e Corporativa

Em tempos de crise, o importante é sobreviver; em tempos de abonança, abocanhar a maior fatia do bolo.

“Os verdadeiros problemas não são os que incomodam no dia a dia, mas os que podem lhe destruir repentinamente.”

“O detalhamento leva ao ‘bias’ e a abstração à superficialidade.”

Na figura acima temos o fóssil de um T-Rex, uma das espécies mais poderosas e intocáveis de sua época. Fácil perceber por uma simples ossada que; energia, força, inteligência e impiedade eram fortes características. Atualmente não passam de peças de museus, fontes de bilheteria e quem diria, brinquedo de crianças. Quantas organizações ou países não serão meros fósseis em questão de tempo? Quantos já não o são? Será o Brasil realmente o país do futuro ou estamos em processo de cozimento para em alguns anos sermos levados ao forno?

1970’s

Foi nesta década onde surgiu o termo Internet para designar uma rede de computadores interligadas; criada pelo Departamento de Defesa Americano com o intuito de garantir um sistema robusto e sem falhas de comunicação.

Foi também em 1971 que Lin Piao morreu, e o Homem forte com controle do governo e o exército chinês deixou como espólio a corrente política centrista liderada por Deng Xiaoping, que estabeleceu as bases para que a China se afastasse aos poucos do Comunismo e estreitasse sua relação com o Ocidente para se tornar um país economicamente mais livre.

Em 1970 a Índia passou por revoluções e contrarrevoluções, com dois importantes acontecimentos. O primeiro deles, a Guerra contra o Paquistão colocou fim a um assunto que consumia energia e dividia o país; o segundo, a volta de Indira Gandhi no cenário político indiano para a retomada de um consenso político nacional.

Os EUA deram o maior calote da história após sofrerem anos com a Guerra do Vietnã e se viram obrigado a deixar o país onde uma grande lição foi aprendida: vencer uma guerra em campo de batalha é mais impopular e custosa do que vencê-la no campo das ideias.

A formação da OPEC e a primeira crise do petróleo tornou exposto a vulnerabilidade das nações em um mundo globalizado, enquanto a Coréia do Sul no galope de um forte crescimento econômico suportado por um governo autocrático formava seus primeiros manifestantes, ansiando por uma nova era: a da liberdade econômica, política e individual.

Na URSS, Leonid Brejnev já era capaz de sentir o colapso do sistema político presente e iniciou uma reaproximação com o Ocidente ao mesmo tempo que realizava a tão relembrada e desastrosa intervenção militar no Afeganistão.

Mundialmente, ficou conhecido como a década da reviravolta econômica. Onde o modelo Keynesiano que havia criado o sonho americano de 1930 até 1970, rendido dezenas de Nobéis e colocado o liberalismo no porão da literatura começou a ser questionado, abrindo espaço mais uma vez para as readequadas teorias econômicas liberais.

GLOBALIZAÇÃO

Deixemos de lado os jargões, em sua forma mais simples o nome correto é comércio internacional, ele existiu desde os tempos mais remotos e tomou as mais diversas formas. Em um período arcaico era restrito e regional e se tornou algo maior e relevante quando Marco Polo formalizou e simplificou a conexão entre Ocidente e Oriente.

Alguns séculos depois a tecnologia marítima facilitou o estreitamento entre impérios, a distância passou a ser um custo menos relevante o que facilitava e muito a barganha de produtos. Os portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses exploraram tal tecnologia ao máximo, enquanto a Itália, em vantagem por sua posição geográfica se posicionou como um “porto seguro financeiro” para os mercantes. Surgiu o Colonialismo onde potências econômicas criavam suas colônias no além-mar para servirem como uma extensão ao seu território, ponto intermediário para o comércio internacional e claro, o uso de mão-de-obra escrava e a extração da matéria-prima extremamente barata.

Algumas décadas depois começaram a surgir as primeiras organizações internacionais e o Imperialismo tomou sua forma como um modelo entre exploradores e explorados. A industrialização e o aumento do mercado consumidor elevaram a necessidade de insumos primários para garantir o atendimento às demandas internacionais. Países como Inglaterra, Holanda, Portugal e Espanha remodelaram seus meios de dominação criando vínculos menos amargos com as antigas colônias, a dominação militar e baseada na força passou a ser trocada majoritariamente por acordos comerciais bilaterais.

A invenção da máquina a vapor, incluindo as locomotivas e os novos navios catalisaram ainda mais o comércio entre nações, a redução do custo logístico e a capacidade de movimentação dos insumos e os produtos finais tornaram as nações mais avançadas tecnologicamente ainda mais competitivas. A mão-de-obra barata e abundância em recursos naturais não mais eram suficientes para fazer frente as grandes potências. Paralelamente, os horrores das Duas Grandes Guerras mudaram para sempre a sociedade de todo o globo, o modelo da relação entre conquistador e conquistado nunca mais seria tolerado e um novo contrato nupcial para o comércio internacional seria necessário.

Organizações como o Word Trade Organization (WTO), General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) auxiliariam a criar acordos que rompiam as barreiras entre países sem a necessidade de milhares de acordos bilaterais. Todo o Mundo sentado em uma mesma mesa para definir as convenções de comércio que depois de aceitas estabeleceriam o novo “contrato social”, regido e julgados por organismos internacionais ditos independentes e imparciais.

Os volumes de transações comerciais aumentaram a mobilidade internacional e a expatriação de pessoas a diversos países se tornaram uma constante. Com a popularização da aviação, conhecer a cultura de um país estrangeiro se tornou barato e a migração cultural se tornou uma nova arma. Países com culturas semelhantes se aproximavam criando novos blocos comerciais enquanto os países com baixo investimento cultural foram aos poucos suprimidos e deixados a sarjeta. A quantidade de empresas multinacionais aumentou exponencialmente, e levar seus produtos além dos 3 Oceanos e 7 Mares se tornaram uma simples questão de logística e não mais de guerras – nasceu então a Globalização.

(NEO) LIBERALISMO ECONÔMICO

Adam Smith juntamente a Karl Marx foram, provavelmente, os maiores “economistas” de todos os tempos. Apesar de ideologicamente possuírem “caminhos opostos” foram gênios capazes de entender a dinâmica comercial bem como seus impactos no modelo social e na mais simples, única e individual interação entre as pessoas. O Liberalismo Econômico inglês fora extremamente agressivo para com as nações do globo, enquanto o modelo libertário americano conquistou adeptos e defensores em todos os lugares do mundo pelo seu convite a democracia.

Foi uma época de grande exploração, mas também de grande inovação e produção tecnológica, que após passar por duas grandes crises e ter exposto os comuns a algumas práticas nada honráveis foi colocado em xeque abrindo oportunidade para uma maior presença econômica do Estado. Infelizmente a presença do estado não traz consigo apenas planejamento econômico, mas também social, se tornando demasiadamente invasivo para a contrapartida dos benefícios oferecidos para a sociedade.

Um Estado de bem-estar ganhou o gosto popular por várias décadas; os empresários estavam felizes com sua parcial liberdade econômica enquanto os trabalhadores corriam atrás do seu “sonho” amparado por leis trabalhistas e políticas sociais. Foi o casamento perfeito, os países desenvolvidos pareciam ter encontrado sua fórmula mágica para o crescimento econômico e harmonia social que durante décadas não sofrera sequer um arranhão.

Assim como grande parte de todos os relacionamentos, a crise financeira acarretada pela Crise do Petróleo colocou em prova mais um verdadeiro amor, o Estado de bem-estar e a sociedade se separaram e um novo modelo promissor ganhou destaque; o Neoliberalismo passou a ser implementado tendo como principal missão reduzir a participação do Estado na economia, abrindo campo para que as pessoas e não o governo buscassem a responsabilidade pelo crescimento econômico da nação.

Repentinamente uma crise internacional insolúvel por falta de capacidade do Estado em angariar novos recursos, ganhou aporte de investidores destes mesmos países revigorando a economia e retomando a “liberdade econômica”. Desde o “conflito de classes” relatado por Marx que um novo posicionamento não se tornava tão forte, àquele que mostra que as pessoas possuem como prioridade em suas vidas a sua liberdade econômica, sendo esta mais importante que sua liberdade individual. O conceito de que o Estado mais atrapalhava do que ajudava na geração de riqueza e planejamento de uma nação ganharam fortes apoiadores como a Inglaterra, Alemanha, Japão e EUA.

INTERNET

Muitos acreditam que a Internet ainda é um campo de batalha aberto, as forças são equitativas em ambos os lados e a qualquer momento a mesa pode virar. Não se sabe ao certo quem está de cada lado da batalha; se o Estado vs. Sociedade, Ocidente vs. Oriente, Sul vs. Norte ou Liberalismo vs. Socialismo. Como se cada um dos opostos anteriores pudessem viver um sem o outro, as pessoas se distraem na eterna esperança de que algum dia o senso comum de paz, amor e gratidão entre os povos vá surgir da Ferramenta que fora criada pela maior potência econômica e militar do Mundo para garantir submissão de qualquer nação, aliada ou inimiga.

Poucos parecem perceber, mas enquanto a navegação e o motor a vapor foram catalisadores do comércio internacional e, portanto, da globalização. A Internet se equipara a colocar um motor de foguete na influência internacional entre potências e países em desenvolvimento ou desenvolvidos. A ingenuidade de que a disponibilidade da informação poderia trazer um grande consciente global pareceu ignorar os milhares de anos em que as informações têm sido utilizadas não para educar mas sim para manipular.

Os modelos econômicos e sociais das maiores potências do globo são propagados como relâmpagos, e no Mundo subdesenvolvido desde os mais abastados até os mais necessitados não conseguem perceber o óbvio: resultado social é consequência de décadas ou séculos de estratégia de consistência política de países com grande visão que se tornaram potências globais.

Conseguir adquirir um produto a seu preço “bruto” pelo eBay, sem pagar os devidos impostos ou avaliar o padrão de vida de um cidadão cuja terra natal é um país livre com leves taxas tributárias é o feitiço perfeito para distrair milhares e milhões e trazer à pauta de discussão apenas um simples assunto: todos querem sua liberdade econômica surrupiada unilateralmente pelos impostos do Estado.

A mitologia grega nos ensinou há milhares de anos atrás, que dentre todos os males humanos da Caixa de Pandora, a Esperança era o pior deles. O mundo vive em ciclos não por menos, dificilmente se engana uma nação por inteiro duas vezes; assim como a impressão em massa trouxe a perspectiva de que os jornais poderiam informar a população e trazer um consciente nacional, ou as ondas de rádio e televisão auxiliariam na formação de uma nação mais preparada e informada; a Internet se tornou um campo, onde guerrilheiros tentam combater o poder com alfinetadas de baixo impacto, e são esmagadas pelas instituições que a controlam.

Nunca foi tão fácil influenciar, monitorar, enganar e direcionar pessoas como neste novo século, e tudo isso graças a Internet. Poucos se atentam, mas assim como o tecido inglês ganhou o mundo com as ferrovias e navios a motores, os países ricos desestabilizam os países mais vulneráveis através da tecnologia e o fácil acesso fornecido pela rede mundial de computadores.

CIÊNCIA, MILITARISMO E AS POTÊNCIAS

O mundo conhecido já foi habitado por diversas potências: tribos, impérios, reinados e repúblicas. Nada escapa ao modelo, toda grande potência, independentemente de seu tempo foi caracterizada por dois grandes fatores: ciência e poder bélico. Comumente ambos fatores caminham juntos, contudo algumas civilizações se preocuparam no decorrer do tempo mais com um fator do que outro.

Os gregos, os persas, os mongóis, os egípcios, os romanos, os vikings, os espanhóis, os árabes, os franceses, os ingleses, os japoneses, os russos, os norte-americanos não possuem outra coisa em comum senão a grande habilidade bélica e investimento em ciência, ou seja, pessoas que auxiliam a gerar riqueza e permitem financiar outras áreas do conhecimento como a história, o direito e às artes. Soa presunçoso, mas é infelizmente uma verdade: nações pobres não produzem escala de historiadores, legisladores e grandes artistas. Basta buscar os ganhadores de Prêmios Nobéis; são poucas as exceções, uma obra do acaso.

Em 1850, a Inglaterra sozinha produzia mais carvão, possuía mais máquinas a vapor e consumia por habitante mais que EUA, Bélgica Alemanha e França juntos. Contudo os povos Germânicos passavam por um processo de unificação, e a solução encontrada para a formação da unidade nacional consistiu na criação de escolas e modelos de ensino que catalisariam o sentimento único de sociedade. Um efeito colateral inesperado, foi uma taxa de analfabetismo de 2% em 1875, o que levou a reverter a situação anteriormente descrita, com a Alemanha tomando a dianteira da capacidade produtiva mundial.

Os EUA se apoiaram no governo keynesiano durante a segunda guerra mundial, e após gastar U$2 bilhões de dólares com a bomba atômica, contrataram mais de 1 milhão de cientistas de todo o mundo, cerca de 20% de toda a força científica mundial. Não podemos dizer que foi apenas questão de sorte, mas o governo norte-americano sempre fora destaque no cenário internacional por ser a terra da liberdade e da prosperidade, e nunca pela capacidade tecnológica e militar. Tudo se reverteu com a segunda guerra mundial, onde se tornou, por sua neutralidade inicial, o maior parque industrial do mundo e posteriormente o maior refúgio de cientistas qualificados. Os EUA simplesmente, angariaram as maiores cabeças do Universo em uma bandeja, pelo simples fato da ampla perseguição ideológica de países autoritários e o medo da guerra chegar à família.

A Coréia do Sul seguiu um caminho um pouco diferente, e após se amparar por décadas em um governo desenvolvimentista e autoritário, criou um tratado político independente com amplo investimento em educação somado a alianças com grandes potências militares. Ou seja, não chega a ser uma potência internacional, mas um país de notório avanços sociais; a Coréia, assim como o Japão pós segunda guerra adotaram a postura de que não ser o primeiro é bem mais gratificante do que estar à margem do mundo civilizado.

Em paralelo novos países têm se apresentado como alternativas, a Índia e a China com sua população de mais de 1.3 bilhões de habitantes, tem investido amplamente na educação das ciências e engenharia, o que percentualmente está formando uma classe de cientistas maiores que a população de grandes países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Adicionalmente, a Rússia, ainda uma potência cientista forma a maior quantidade de engenheiros por ano em todo o mundo. Mais uma vez, não se trata de um preconceito para com as outras disciplinas, mas as riquezas tecnológicas nascem primordialmente dos cientistas, para que outras áreas não menos importantes possam se beneficiar.

O Brasil parece perdido em meio a todo o turbilhão mundial, um dos países mais ricos em recursos naturais, não só é carente de competência para explorá-lo, como também vive uma sociedade medíocre cuja principal preocupação é o consumismo e a busca pela liberdade econômica. Poucos sabem, mas a liberdade econômica nunca virá antes de uma revolução científica. Em pleno 2016 vivemos a luta entre ricos e pobres, burgueses e proletariados, teoria descrita há mais de 200 anos por Marx; ainda discutimos Adam Smith e seu modelo de riqueza das nações.

Fácil conseguir uma comoção nacional para defender conquistas sociais ou a liberdade econômica, todos querem pagar menos impostos para que possam usufruir de seu trabalho de forma mais adequada ou receber todas os direitos garantidos pela Constituição. A politização exacerbada exclui da discussão qualquer carência e oportunidade de crescimento e primordialmente as principais ameaças ao futuro.

Políticos se matam pelo poder, amparado por empresários com suas preferências e cidadãos que se movem como gado a mercê de ciclos econômicos. Ninguém parece perceber o quão importante é o investimento na formação de cientistas, tão pouco a influência do maior “back door” da Globalização – a Internet. Todos parecem concordar que Educação é algo essencial e importante, mas poucos vão a rua por ela, o romantismo para com o ensino gratuito ou a criação de universidades de ponta ofusca o mais óbvio, a real carência tecnológica que tal falta de formação vai criar ao país. Isto sem considerar a migração de grandes nomes nacionais para países com maiores desafios e recursos para o desenvolvimento da pesquisa aplicada, o que por si só já é uma grande perda.

Muitos falam que o Brasil é o país do futuro, que sua população jovem, criativa e cheia de energia aliada à grande disponibilidade de recursos naturais criarão uma nova potência no Cone Sul. Não posso negar, que minha esperança e apreço nacional sempre me colocaram na expectativa de ver a data para este novo país chegar. Contudo é fácil perceber quem dentre os BRICS irão se destacar.

As pessoas se iludem e se “matam”, cada qual buscando suas prioridades, enquanto o óbvio e o mais simples é deixado de lado. As empresas, que em sua grande maioria, apoiam um modelo neoliberal estão preocupadas em reduzir os impostos e o tamanho do Estado, possuem uma visão míope de que com mais dinheiro em caixa se tornarão mais competitivas enquanto o mundo Globalizado avança a passos largos pela Internet e nossos principais concorrentes se preparam para a batalha com uma massa de conhecimento que não estamos nem preocupados em conseguir formar.

Não importa se em tempo de crise ou de abonança, o pensamento individualista e minimalista de sobreviver ou tomar o mercado está deixando de lado o que pode se tornar nossa principal tormenta. O fato de que estamos perdendo a oportunidade do mundo virtual e da era da Internet para nos tornarmos por mais alguns séculos um país medíocre, sem competitividade e cuja pauta consiste em imitar, copiar e invejar os países ricos. Não se trata de quem pode fomentar melhor a educação, se o Estado ou o Mercado, e sim de que o debate simplesmente não está na pauta e, portanto, fora interesse de ambas instituições.

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