Futuristas e Cartomantes

A ansiedade por conhecer o futuro é de longe a maior fragilidade da vaidade Humana.

“Sempre olhe para o cemitério, e busque as evidências silenciosas. ” [Nassim Taleb]

“Uma previsão é como uma âncora no vácuo. ” [Nassim Taleb]

Na figura acima temos uma a caricatura do adivinho, o objetivo é único: satirizar àqueles que desdenham da fragilidade e curiosidade dos “populares” que pagam ciganos, se encantam com mensagens divinas, vão à cartomantes e acreditam em visões de futuro. Afinal de contas, até mesmo o mais alto executivo da mais rica corporação paga para ouvir algumas “mentirinhas” que lhe permita seguir confiante e avante pela surpreendente complexidade da vida.

O Ser Humano tem uma “quedinha” pelo futuro. Será que vou encontrar aquela pessoa amada? Quando vou morrer? Como será minha vida amanhã? Todas estas indagações e preocupações cuja ansiedade e fragilidade caiem como uma luva para cartomantes, ciganos, pastores, padres, mestres-adivinhos e charlatões afetam direta ou indiretamente 100% da população.

Obviamente poucos se dão conta disso, e quanto maior o conhecimento e a autoconfiança, menor a capacidade de perceber o quão a própria vida é guiada e planejada por previsões que, senão próprias, foram definidas e são perseguidas por gurus ou terceiros.

Imagine aquele amigo ou amiga, que após se decepcionar com um relacionamento amoroso, profissional; ou qualquer outra das inúmeras desilusões que só a vida pode  nos proporcionar; tenta erguer a cabeça e continuar sua vida. Primeiramente arruma-se uma desculpa para o ocorrido, afinal de contas tudo que já se passou tem uma certa e clara explicação; posteriormente procura-se uma cartomante para saber o que vem por aí, as boas novas, ou quem sabe as más, afinal de contas, se já se encontra na lona, qual o mal em suportar mais algumas agressões?

Se você imaginou e desdenhou deste seu amigo; principalmente se consegue ver associação do caso ao compositor e cantor Reginal Rossi que “viralizou” as desilusões amorosas em sua música Garçom; olhe para si mesmo, ou o ambiente onde trabalha. Quantos projetos e atividades não saíram do planejado? Quantas boas explicações não foram encontradas? E, principalmente, quanto tempo não foi despendido para antecipar o futuro para que o erro não ocorra da próxima vez.

Ainda não conseguiu encontrar qualquer analogia à vida pessoal? Que tal olhar para o mundo a sua volta. Quem será o próximo presidente? Quanto aumentará o PIB? E a taxa básica de juros? Independente se culpado ou não, forte ou frágil; o Ser Humano está sempre, sendo direcionado ou correndo atrás de previsões que grande parte mal sabe de onde surgiram e poucos possuem a humildade de dizer que as inventaram.

As previsões e adivinhações são no fundo coisas similares. Imagine uma pessoa com um conhecimento único e exclusivo pessoal – por exemplo um número que está em sua própria mente – e esta pessoa lhe pede para adivinhar o número; sua chance de acertar é tão ínfima quanto o inverso do infinito. Oras, se adivinhar o desconhecido é um jogo tolo, porque prever um futuro desconhecido não o seria? A resposta é simples, adivinhar é atividade de insignificantes, já as previsões são realizadas por pessoas com grande conhecimento, experiência e autoconfiança em suas projeções. No fim o assunto se resume a um único ponto, se confio em mim faço previsões, se encanto as multidões posso fazer previsões; todo o resto são meros “cartomantes”.

Mas porque toda esta discussão é importante? Simples. O maior problema de grande parte das organizações hoje é a busca incessante pela previsão ou o pior, a energia gasta para entender porque elas não se concretizaram. Lembra? Depois de ocorrido tudo possui uma explicação. Infelizmente o problema não é objetivo, ao contrário é subjetivo. Não se trata de uma ciência, se trata de comportamento. Não é uma questão racional, é um assunto de nível emocional.

Trabalhar ou viver em um ambiente previsível faz bem para a mente, não porque as previsões serão corretas, mas porque o Homem se sente mais seguro e confortável e assim pode produzir mais. Acertar previsões é questão de sorte, portanto é mais pertinente trabalhar no engajamento para se atender objetivos e metas. E claro, buscar explicações para os erros é escrever um livro de história com causa e consequências forjadas, é muito mais válido discutir e moldar os comportamentos que levam aos erros ao invés de se concentrar nas casualidades. E acreditem, as casualidades são em grande parte o foco das discussões sobre erros ocorridos pois elas eximem os culpados, e portanto, o comportamento.

Existe uma explicação física ou matemática que ilustra muito bem os erros das previsões, principalmente àquelas que tangem a planejamento e execução de projetos, já que previsões mais audaciosas estão tão distantes da capacidade humana que nem se quer vale a pena tentar ilustrar.

A figura anterior mostra quatro exemplos de reflexão de raios solares em espelhos. No primeiro caso temos um espelho plano, onde é possível perceber que existe poucas mudanças caso se altere o ângulo de incidência do raio, resumindo, alterações pequenas no ângulo incidência geraram alterações pequenas no ângulo da reflexão.

O segundo exemplo, onde temos espelhos côncavos e conexos a direção da reflexão muda totalmente. Nestes casos, mudar o ângulo de incidência um pouco pode alterar absurdamente a direção da reflexão, e no caso do côncavo não importa o ângulo de incidência, todos os raios passarão por um mesmo foco.

No terceiro exemplo, um único raio de luz é capaz de gerar oito outros, enquanto no quarto exemplo, nos movemos para o mundo tridimensional e qualquer alteração na incidência pode refletir o raio em ângulos e direções totalmente desconexas. Quantos projetos não se parecem com a incidência e reflexão dos raios solares? Onde mudanças drásticas parecem não alterar o resultado e simples deslizes trazem impactos gigantescos, imprevisíveis e inimagináveis?

Existem também os casos onde simples ações trazem surpresas extremamente agradáveis. Projetos em geral não são superfícies planas, convexas nem mesmo tridimensionais. Em grande parte, são superfícies desconhecidas e complexas que ainda possuem como incógnita qual será o ângulo de incidência no decorrer do tempo. Mesmo assim, existe um grande esforço na tentativa de prever e controlar para onde será refletido o raio que deveria incidir em um determinado ângulo.

Qual a resposta de um físico óptico caso lhe fosse incumbido a missão de descrever o comportamento de feixes de laser em movimento no decorrer do tempo em uma superfície reflexiva desconhecida? Provavelmente a de que se trata de um problema insolúvel. Ironicamente se trazermos a analogia para o mundo corporativo, a resposta que gestores carregam ou exigem quando são deparados com perguntas similares é, geralmente, uma bela, boa e mentirosa previsão.

Um supervisor de manufatura, provavelmente não concordaria com esta percepção. Afinal de contas, em uma linha de produção, salvo exceções, em grande parte do tempo tudo corre e segue os modelos e estimativas planejados. E a explicação está na padronização de inputs e ferramentas de produção. Se uma organização possui o desejo de ser previsível precisa criar coisas previsíveis, padronizar seus inputs e automatizar o processo produtivo, afinal de contas o Ser Humano e o livre arbítrio já são uma grande variável de complexidade por si só.

Comparando com o nosso modelo físico anterior, conheça a superfície, coloque os feixes de luzes sempre com a mesma incidência e passe a cobrar milimetricamente pelo resultado. Se alcançar tal modelo é muito difícil, não se esqueça, até mesmo em uma fábrica de sabonete são poucos os processos e atividades 100% previsíveis; deve-se tomar o cuidado e ser cauteloso quanto a outro “bias” do Ser Humano: àquela que só nos leva a enxergar o que queremos e tenta generalizar pontos específicos para um todo, o famoso bias da padronização.

Obviamente, não se pode esquecer, que automação e previsibilidade são contrapostos a criatividade e inovação; portanto será necessário abordar os dois problemas em conjunto, caso contrário, corre-se o risco de se ganhar grande produtividade no processo de execução e mesmo assim se tornar pouco competitivo devido a defasagem tecnológica ou baixa entrega de valor diante dos concorrentes. Se seu produto e suas entregas mudam o tempo todo, sua capacidade de automação e padronização de inputs precisam ser ainda mais velozes.

Cedo ou tarde, todo Homem se vê diante de uma previsão; portanto da próxima vez que ouvir uma, não se esqueça, desconfie dela, não porque quem a trouxe não possui conhecimento ou experiência no assunto; mas porque você mesmo também as fazem e comumente passa longe de acertá-las. Se não conseguir, observe bem o adivinho. O que nele lhe atraiu tanto que o encantou? Seria sua fisionomia? Suas vestimentas? A instituição que representa? Sua Conta Corrente? Cuidado! Talvez o tempo de reflexão já foi o suficiente para que uma parte relevante do seu dinheiro já tenha sido “carregado”.

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