Dan Ariely (1967 – )

O Homem é Previsivelmente Irracional.

“Pense em como a física seria difícil se as partículas pensassem.” [Murray Gell-Mann]

“Que obra prima é o homem! Como é nobre pela razão! Como é infinito em faculdade! Em forma e movimentos, como é expressivo e maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! Protótipo dos animais!” [Shakespeare]

“Penso, logo Existo.” A célebre frase de Descartes é a síntese de como nós, seres humanos nos julgamos lógico e racionais; apesar de excelente cientista deixou que se passasse desapercebido as colocações assertivas do também notável, porém “artista”, Shakespeare. Não se trata da questão de nos lançarmos a humildade e nos compararmos a um cachorro, sapo; imaginem que ofensa se me comparasse a um jumento!

O fato é, apesar de racionais e, portanto, preso a Casa de Espelhos que é o nosso cérebro, poucas vezes paramos para refletir o quão animais somos e, portanto, contraditoriamente “irracionais”. Coloca-se aqui o “irracional” entre parênteses justamente para deixar claro, que o fato de sermos, muitas vezes, “irracionais” não tem relação com tomar decisões ou realizar ações estúpidas, mas o fato de gastarmos tanto fosfato para chegarmos a conclusões e tomarmos ações que realmente não fazem sentido.

Apesar de glorificado e endeusado, nosso cérebro assim como nossas próprias invenções possuem falhas, ou diriam os menos humildes um bias ou modo-operandis que certamente são merecedores de uma revisão, recall, patch ou ser submetida a uma lojinha de concertos. Neste texto vamos abordar alguns destes “probleminhas” e o objetivo é único: tornar consciente e quem sabe memorável coisas que fazemos sem perceber, ou em alguns casos até percebemos, mas apenas quando se é tarde demais.

Não devemos nos sentir culpados, afinal de contas é como fomos projetados ou arquitetados – seria como uma chave sentir-se culpada por trancar e abrir uma fechadura. Tampouco devemos buscar um estado de alerta constante, pensar e refletir sobre tudo traz muito trabalho, consome muita energia e não lhe permitirá seguir com a vida profissional nem a pessoal. São apenas anuências, que apesar de impactarem nossa vida de forma avassaladora, continuam sendo praticadas no labirinto que é a mente humana sem a devida percepção.

Válido encarar o aprendizado com ironia, e porque não, uma certa sátira de como somos realmente atrapalhados. Se possível utilizar um pouco do que se sabe para se perceber entrando em desventuras ou entender que está sendo manipulado, ou sendo menos direto, manuseado. Deixemos o blá, blá, blá e a introdução de lado, e vamos aos “fatos”.

Tudo é Relativo

Não estamos falando de Einstein, tampouco das enormes discussões que levam em conta os diversos pontos de vistas onde todos podem estar corretos. Como já afirmara Protágoras: o Homem é a Medida de todas as Coisas. Discorde-se ou não, o Homem como espécie, é uma máquina de Identificar Padrões e por consequência um animal que faz comparações. Comparamos tudo e a todos; o tempo todo. Do mesmo modo que um cachorro se põe a latir, a vaca a mugir, nós maravilhas terrestres nos colocamos a comparar.

E qual o problema disso? Nenhum. Exceto pelo fato de que temos extrema dificuldade em tomar uma decisão dada duas opções, isto nos causa conflito e angústia. “E se tomar a decisão errada?” (falaremos sobre o medo depois). O que por consequência nos leva a sempre querermos uma terceira opção – que se apresentada como o caminho do meio às duas anteriores – que geralmente será a escolhida.

  • Esquerda ou Direita ou um pouco de cada?
  • Carro Barato ou Carro Caro ou Preço Médio?
  • Internet de 1MB ou 100MB ou algo entre isso?

Quando se existem muitas opções, mais que três por exemplo, nosso cérebro tende a ficar confuso e a tomada de decisão se torna ainda mais angustiante e demorada – isto talvez seja um dos maiores maus corporativos do mundo repleto de informações em que vivemos hoje, muitas opções somado ao medo de errar exacerbado – e é neste momento que nos tornamos “bebês indefesos”. Quando se existe muitas opções, nosso cérebro automaticamente tende a escolher a opção que é absurdamente melhor do qualquer outra ao invés da opção que de fato queremos.

Vou exemplificar, se fosse assinar uma revista que gosta muito e tivesse duas opções, com qual ficaria?

Assinatura %
Online – R$50,00 68%
Impressa – R$150,00 32%

Provavelmente, você, jovem moderno e digital, escolheria a versão online pois é o que lhe interessa, aliás, um monte de papel para se jogar fora ou acumular em um cômodo da casa realmente não seria algo agradável. Agora imaginem que as opções fossem ligeiramente diferentes como as apresentadas abaixo:

Assinatura %
Online – R$50,00 16%
Impressa – R$150,00 0%
Online + Impressa – R$150,00 84%

Os números em percentual ao lado indicam a resposta dos entrevistados. Ou seja, é perceptível que o fato da versão “Online + Impressa” ser absurdamente melhor do que a versão “Impressa” pelo mesmo preço fez com que várias pessoas que queriam apenas a versão Online gastasse mais.

Isto vale para muitas outras coisas, e os vendedores e varejistas usam e abusam disto. No caso acima, ainda, tínhamos apenas três opções, conforme estas aumentam (como é o caso de TVs, Sons, etc.) nossa escolha comparativa é ainda mais aguçada. Resumindo, quer vender algo ou ideia? Crie várias opções para deixar o receptor confuso e ofereça duas opções que possam ser comparadas facilmente com a superioridade “grosseira” de uma destas.

Outro ponto extremamente relevante ao nosso poder computacional de comparação consiste na criação de referências comparativas que podem ser arbitrárias, também chamado de coerência arbitrária. A coerência arbitrária basicamente afirma que criamos uma referência sobre algo em nossa cabeça e depois disso a utilizamos como base de comparação, não importando se esta referência é algo que faça sentido ou não.

Por exemplo, cada pessoa tem um preço para Monitores LED em sua cabeça (na minha é R$800 para o último monitor que eu comprei); e com base nisso toma todas suas decisões para compra de monitores, qualquer coisa mais barata que isso é uma pechincha (vou sair ganhando) e mais caro que isso tem que ter atributos que chamem a atenção.

E qual a importância disto? Para quaisquer produtos que consumimos, o preço de referência é definido pelo fabricante, que depois de impresso em nossa mente passaremos a utilizar como referência de comparação para tudo. Não acredita? Por que os preços dos automóveis são tão caros no Brasil? Porque uma Máquina de secar aqui custa R$2500 reais e em outros países com impostos maiores é mais barata?

Isto é tão verdade que em uma pesquisa realizada com pessoas que não são profundas conhecedoras de vinho o resultado foi surpreendente. Apresentou-se dois vinhos aos participantes deixando claro que um era melhor do que o outro, foi pedido para que estes escrevessem os dois últimos dígitos do seu CPF em um papel e depois dessem um preço de quanto pagariam por cada vinho. Impressionante que os preços orbitaram com base nos dois últimos dígitos do CPF das pessoas. O que o CPF tem de relação com o preço do vinho? Isto mesmo, nada.

Depois que o preço de referência foi estabelecido e impresso em sua mente, é difícil mudá-lo. Acostumou a tomar cerveja gourmet por R$10 a garrafa, vai achar tudo menor que isso uma pechincha, acostumou-se a comprar camisas de marca por R$300 reais, idem. É esta é uma das maravilhas do mundo capitalista na qual vivemos. O que divide os ricos da classe média e dos pobres não são seus salários e sim o valor impresso em sua cabeça. Cada qual tem uma “régua” distinta, o que permite a todos serem felizes e viverem sua vida de forma completa; claro que o pobre em geral é mais feliz, o que nos leva para a próxima consequência da nossa viciante mania em comparar tudo, a inveja. Imaginemos duas personagens:

“José acorda todo dia as 5 da manhã, prepara um pirão de água com farinha para que sua família possa comer, vai para a lavoura e trabalha das 6h até as 11h, onde come um prato de arroz com feijão e ovos podendo se dar ao luxo de comer carne de panela uma vez por semana. Volta as 11h:45m ao trabalho onde cultiva e colhe legumes até as 17h. Volta para casa, come um pão com manteiga e leite junto com a família, assiste ao noticiário, prepara a cama e deita, descansando e se preparando para mais um novo dia.”

“Marcos acorda todo dia as 7 da manhã, passa na padaria ao caminho do trabalho onde toma um Cappuccino com um salgado delicioso, seu filho o acompanha, vai deixá-lo na “escolinha” fantástica e multidisciplinar. Trabalha de forma criativa em uma agência de marketing pensando em propagandas que encantarão seus clientes e consumidores. Na hora do almoço come geralmente em uma churrascaria com um buffet de salada completo e carnes excelentes. Ao voltar para casa brinca com o filho no quarto dos brinquedos até que possa abrir um bom vinho e comer uma salada com sua esposa enquanto conversam sobre o seu dia. Dorme com a certeza que amanhã será mais um novo dia divertido e diferente.”

Qual deles tem uma vida mais feliz? Marcos é claro. Agora coloquemos uma outra variável, Marcos e José não se conhecem; José vive em uma vila com vários outros Josés e Marcos em um trabalho cujo o colega do lado – o Marcão – é mais inteligente, possui um salário maior, tem uma esposa mais bonita e um carro mais potente! Coitado do Marcos vai passar a vida lutando pela felicidade inalcançada, tomando depressivos e se culpando por não ter uma vida decente. E é por este mesmo motivo que um aumento de salário não faz você se sentir melhor, não se as pessoas ao seu lado ganharem mais do que você.

Para finalizar sobre a Relatividade, vamos abordar a comparação que melhor sabemos realizar. Que é aquela onde comparamos alguma coisa com nenhuma coisa. Você compraria uma Ferrari por U$500 mil dólares? Se tivesse o dinheiro, talvez. E uma Ferrari de graça? Com certeza, quem não adoraria passear pelas ruas da cidade se exibindo para os Marcos de plantão sem nos preocupar se isto os leva a visitar o psiquiatra semanalmente. Bom, mas uma Ferrari de graça nos custaria em impostos e seguro no mínimo uns U$10 mil dólares por mês, temos dinheiro para isto?

O exemplo acima foi absurdamente desproporcional, agora imaginem que ao comprar algo de R$70 tenha que pagar R$10 de frete, e que se comprar mais um produto de R$30, alcançando o valor final de R$100 o frete sai de graça, e neste exato momento aparece no site uma recomendação de um produto que lhe interessa exatamente por este valor. Quão tentador não seria adquirir o produto? A Amazon.com na França trocou seu frete de $0.01 para zero e aumentou as vendas de forma equivalente aos países que já tinham adotado o custo zero. Ou seja, mesmo 1 centavo é muito quando comparado a nada. Agora imagine aquele refrigerante com zero calorias, aquele vídeo game encalhado que vem com 100 jogos grátis. Pois é, os comerciantes sabem e abusam disto. Não é à toa que na era da informação conhecer o consumidor é a forma mais simples de transformá-lo em um produto.

Sensações

Todos os Seres Humanos possuem sentimentos e sentem sensações, até aqui nada de novo, exceto pelo fato que enquanto estamos vivenciando uma sensação nosso cérebro entra em um estado diferenciado onde todas as nossas decisões, modelos de comparação e referências são alterados. Esteja você com medo, raiva, feliz, triste e principalmente com tesão, seu comportamento será algo totalmente inesperado e imprevisível para você; para os outros nem tanto, principalmente se os outros é uma referência direta aos profissionais de marketing.

  • Sabe aquela melhor amiga da namorada? A cunhada? Ou aquela moça feia que jamais se permitirá ter alguma relação? Tudo pode acontecer quando se está no estado de excitação certo.
  • Aquelas palavras de ódio, cutucões na ferida e agressão que nunca fizeram parte do dia a dia? Basta estar com a raiva no nível apropriado.
  • Aquele elogio exacerbado, sentimento de gratidão eterna, promessas que nunca serão cumpridas? São realizados tão logo a felicidade veio à tona.

O fato é que ao ser submetido a sensações exacerbadas – a excitação sexual é uma das mais fortes e menos traumática delas e a mais utilizada pelo marketing – nos tornamos um trem desgovernado, é quando nosso interior ou para os mais técnicos o id toma conta do nosso corpo e não temos a mínima ideia do que irá acontecer. Em pesquisas realizadas com jovens, foi possível perceber que as decisões tomadas em estado de excitação podem variar até 500% quando comparados a um estado corriqueiro e normal, se é que jovens não estão excitados com alguma coisa o tempo todo.

Dentre as sensações, existe uma em especial que nos assola o tempo todo, o medo. Não estamos falando de um medo incessante e incontrolável, mas aquele que nos incomoda a cada uma hora e nos faz tomar decisões nada racionais. O primeiro impacto do medo em nossas vidas está relacionado ao fato de não saber errar ou perder, as pessoas dificilmente abrem mão do que tem pois se trata de uma perda e o medo da perda é grande, é por isso que possuem dificuldade em deixar um emprego ou se lançar em novos desafios mesmo que estes sejam promissores.

Falando em oportunidades, é o nosso medo de errar também o que nos impede de encarar de corpo e alma qualquer atividade que nos possa trazer grandes resultados em troca de manter uma porto seguro para que possamos recuar caso algo esteja errado. Vivemos um mundo de grandes possibilidades e oportunidades, e atualmente estamos vivendo uma boa dose de liberdade, o que deveria ser um oásis para grande parte da juventude tem se tornado um empecilho e confusão ao passo que os jovens querem abraçar tudo e a todos com o medo de perder algo ou não apanhar a melhor oportunidade.

Tenho uma experiência pessoal que é bem engraçada, um certo momento da vida trabalhei nos EUA por dois anos, e toda vez que ia em uma loja, e isto ocorria no mínimo 2 vezes por semana – o fato de estar longe dos amigos e família que tinha no Brasil me levou a procurar a diversão no consumo de cervejas, eletrônicos e roupas ditas “de marca”.

Hoje consigo perceber quanto era engraçado quando via um produto, comparava seu preço imediatamente com o do Brasil e o adquiria, sempre pensava, vou comprar, não sei quanto terei outra oportunidade. E isto ocorreu durante os dois anos que lá fiquei, até o dia que voltei definitivamente para o Brasil e doei boa parte de tudo que tinha comprado quando meu Pai ao ver uma mala com 22 pares de tênis perguntou se eu era tonto ou algo parecido por ter tantos calçados assim comigo.

A importância em ter a consciência sobre as sensações está no fato que todos nós temos um Médico e um Monstro Interior, e que este monstro entra em ação quando nossas sensações se afloram; a melhor maneira de evitá-lo é nos controlando para que não nos lancemos a tentação. Ou seja, temos que fortalecer nosso super ego para não perder a visão e entrar em perda de controle. Pode parecer tudo muito complexo, mas falemos de um exemplo bem simples que ocorreu esta semana.

As rádios de Blumenau noticiaram com fervor o dado de que a cidade teve um aumento nos casos de AIDS em mais de 300% (ou algo em torno disso) e a comunidade não sabe o que fazer para reduzir os números. Eu mesmo ouvi uma radialista comentar: como pode o jovem transar sem camisinha tendo a consciência de tudo que existe e o governo as distribuindo gratuitamente nos postos de sáude?

Afirmaria com certeza, que a própria radialista já deve ter feito o mesmo em um estado de excitação em um tempo não muito longínquo, e não há nada de errado nisto, é apenas uma decisão irracional tomada em uma situação de calor. Como resolver o problema? Tomando as decisões corretas de cabeça fria. Isto significa comprar e ter camisinhas enquanto se está sóbrio e consciente, pois no calor da batalha, dificilmente alguém vai ir à farmácia.

Agora, pensemos, o que um pai acharia de sua filha de 15 anos se encontrasse um preservativo em sua bolsa? Será que não é por conta disso que o jovem anda tão despreparado? Esta pergunta nos leva a um outro assunto: como a moral e os bons costumes podem influenciar na honestidade de uma sociedade.

Desonestidade

Este é, talvez, o tema mais debatido no Brasil atualmente, estamos passando por uma avalanche de acontecimentos que estão colocando os políticos à uma exposição negativa nunca antes vista. Mas vamos lá, será que realmente os políticos são desonestos? A resposta é, naturalmente, um belo sim. A pergunta a se fazer é: será que só os políticos são desonestos?

A verdade é que todo Ser Humano é desonesto, e grande parte nas mesmas proporções, a diferença básica está no absoluto dos valores. Em pesquisa realizada em uma faculdade, onde os alunos poderiam fazer a prova, conferir o gabarito e contar ao professor quanto tirou, grande parte das pessoas foram desonestas e aumentaram suas notas, mas este aumento foi “só um pouquinho”. Ou seja, grande parte das pessoas tendem a roubar se for pouco, o problema é que quem trabalha com grande quantia de dinheiro o “pouco” se torna muito.

Alguém poderia dizer, Eu roubar? Não. Eu sonego imposto, mas é porque o Estado não merece ficar com meu dinheiro, eu minto que o preço da TV está mais barato em outra loja para forçar um desconto, mas é porque as margens de lucro das lojas são gigantescas. Posso até forjar uma nota de refeição com bebida para receber da empresa, afinal de contas estava a trabalho, fiquei até tarde e não posso nem tomar um drink? Não nos sentimos culpados, arrumamos justificativas com maestria, assim como os políticos devem acreditar que merecem o dinheiro pois estão fazendo um bem para a nação.

Existe uma observação importante com relação a este tema. Durante a experiência, o grupo de alunos que tiveram que escrever os 10 mandamentos no cabeçalho da prova roubaram menos; mesmo que a grande maioria deles não lembrou sequer dos 3 primeiros. Isto também ocorreu quando pediram para que estes mesmos alunos escrevessem um código de honra ou juramento profissional. Perceba o super ego e os preceitos morais falando alto e o porquê a religião, filosofia e as leis são algo tão importantes e devem ser abordados durante a infância para a formação de uma sociedade.

Por fim é válido lembrar que a desonestidade aumenta conforme nos distanciamos do, tão desejado, dinheiro. Poucos percebem, mas o dinheiro tem um peso tão forte em nossa mente, que se tornou praticamente um Deus. Em experimentos realizados, foi possível perceber que as pessoas tendem a roubar menos quando lidam diretamente com dinheiro, pois roubar dinheiro é crime, já algum objeto de valor é algo mais justificável.

Segue um exemplo. Sua esposa lhe pede para comprar uma caneta azul para o trabalho de escola do seu filho, o prazo é amanhã e você para variar esqueceu e lembrou-se apenas antes de sair do trabalho, percebe que para passar na livraria vai ter que pegar trânsito extra e vai perder a partida de futebol que começa em algumas horas; também lembrou que na empresa existe um armário cheio de canetas azuis para que os colaboradores as utilizem em suas atividades. Pegaria uma caneta? Perderia o Jogo? Ou levaria a bronca da esposa?

Veja que roubar uma caneta de um armário que tem centenas dela é uma ingenuidade, uma bobagem sem maiores consequências. Agora imaginemos que esta caneta custe R$5, você pegaria R$5 reais do caixa da sua empresa, mesmo sabendo que existe centenas de notas de R$5 lá? Bem provável que não.

O maior problema da desonestidade enquanto estamos longe do dinheiro não ocorre apenas entre pessoas, isto também ocorre na relação empresa e consumidor. Roubar R$1000 de um consumidor é uma decisão que um diretor de empresa dificilmente iria fazer, agora sumir com 50.000 milhas que equivale a uma passagem de ida e volta no mesmo valo porque o cliente ficou tempo de mais sem utilizar e afirmar que elas expiraram é algo que parece razoável. Colocar R$10 a mais na fatura da conta de telefone é um roubo, agora lançar um serviço que custa o mesmo sem o cliente pedir é visto de forma natural. Sendo que o resultado é um só: tudo se trata de um belo e bonito roubo.

Existem coisas realmente mais estranhas que se passam na nossa cabeça e não fazem sentido, e elas geralmente ocorrem pois existem normas a serem seguidas, e a questão do dinheiro versus o objeto é visivelmente percebido nas normas sociais.

Normas Sociais

Um casal de amigos lhe fez um convite para um jantar, o motivador é simples: jogar uma conversa fora e passar uma tarde descontraída depois de uma semana pesada de trabalho. Você pergunta o que tem que levar e a resposta, como de costume, é um belo nada. Durante a noite toma um bom vinho, uma boa cerveja, come uma boa comida e uma boa sobremesa além de desfrutar de uma conversa agradável. A certa altura da noite se sente mal por não ter contribuído com nada, afinal de contas não gosta de lavar louça e não ajudou a preparar a refeição e pede para oferecer ao seu amigo R$100 pela noite e tudo começa a desandar, uma ofensa.

Realmente muitas pessoas se sentiriam ofendidas e acreditariam que não é necessário o pagamento, mas porque se ao invés de oferecer os R$100 em dinheiro fosse oferecido um vinho de mesmo ou maior valor isto seria algo aceitável? A resposta é que a mente humana separa muito bem o que é social do que é de mercado e estas coisas não se misturam.

Portanto, se vai visitar um amigo que acabou de comprar uma casa nova, se levar uma nota de R$100 vai parecer algo estranho, mas se levar uma decoração de mesmo valor será muito bem recebido. Se sua mãe quer muito uma máquina de lavar, dar o dinheiro durante a refeição para ela adquirir o eletrodoméstico é algo ofensivo, mas dar ela de presente um dia qualquer do ano será um belo estreitamento dos laços familiares.

Existe algo muito relevante para se saber sobre as normas sociais e as de mercado, e o fato consiste de que a norma de mercado sempre prevalece, mas é a norma social a que possui mais força e traz melhores resultados. Em uma decisão errada, uma creche que queria dar uma lição aos pais que não buscavam seus filhos na hora certa criou um regulamento: os pais impontuais, pagariam uma multa pelo comportamento. O objetivo era único, conscientizar os pais de que era necessário pegar seus filhos na hora correta e ter responsabilidade pelos horários deles

Mas ao trazer uma solução de mercado o que aconteceu é que os pais começaram a deixar os filhos mais tempos em espera e a pagarem os valores não aceitando mais as repreensões da diretora. E o que foi pior, depois de percebido o erro a escola tirou a multa e tentou voltar a conscientização, mas não conseguiu mais obter o resultado anterior, ou seja, a norma de mercado prevaleceu. Em um mundo onde as pessoas são egoístas e o dinheiro pode tudo, nada pior que cobrar por um serviço como forma de repreensão.

Isto ocorre muito no ambiente de trabalho, colaboradores rendem muito mais quando se sentem parte da empresa. Trabalham finais de semana, deixam de ir a eventos dos filhos na escola e trabalham horas extras sem cobrar para entregar um trabalho. Este é o poder da norma social! O problema é que ao tirar este relacionamento do âmbito do mercado o colaborador espera uma contrapartida da empresa; a de por exemplo poder faltar quando seu filho está doente independente de quão importante seja a entrega de um projeto; algo que a empresa dificilmente entenderá.

Aqui é fácil perceber que existe um conflito, a empresa espera que o colaborador tenha uma relação de normal social para com ela enquanto puxa tudo para as normas de mercado. E isto é danoso pois quando a norma de mercado é muito forte na relação empregado x empresa o compromisso de um para com o outro é baixíssimo e o rendimento idem, enquanto a chance de trocar de trabalho vai as alturas.

Esta expectativa do colaborador é só mais um outro vício do cérebro humano, vamos então falar sobre ele e qual sua influência no nosso dia a dia.

O Poder da Expectativa

“Você é o que sua mente quer ser.”

“Pensamentos positivos trazem coisas positivas.”

“Palavra tem poder.”

Muitos já devem ter ouvido algumas destas frases, ou vertentes mais formais, seja de um parente um sábio popular, um líder espiritual ou para os mais intelectuais refrões de algum livro de autoajuda. O ponto é que apesar de frases bobas elas são belas verdades.

Em um experimento com pessoas que estavam com enxaquecas foram oferecidas duas aspirinas, uma delas possuía o valor convencional e a outra um valor exorbitante, pois se tratava de um produto novo no mercado que poderia acabar com qualquer dor em segundos. Apesar de serem o mesmo remédio o resultado da super aspirina foi muito melhor. Talvez isto explica o fato de acharmos que roupas de determinadas marcas possuem mais qualidade ou vestem melhores. Empresas que possuem marcas tendem muito mais a investir em redução de custos do que em materiais inovadores que aumentem a qualidade do seu produto, só não acredita quem não realmente não quer entender.

Existe algo também importante acerca do preço ou do efeito gourmet aplicados aos produtos. Se oferecermos uma Torta de chocolate belga ou simplesmente uma torta de chocolate a primeira tende a receber melhor avaliação pelos consumidores, mesmo que sejam a mesma torta. Então aos críticos da gourmetização exacerbada que está ocorrendo no Brasil e no Mundo, só tenho uma coisa a lhes dizerem, se o produto é o que diz ser ou não, não vale a discussão, mas que este deve custar mais caro pois traz um maior prazer ao consumidor não existe dúvida alguma.

O poder da expectativa ainda vai além, em experimentos realizados na década de 50 nos EUA, foi provado que cirurgias placebo, isto mesmo, o paciente era cortado, mas nada era feito dentro dele tiveram o mesmo resultado que as cirurgias verdadeiras. Não se deixe afetar pelo fato que a medicina enganou os pacientes há alguns anos atrás, e provavelmente deve fazer o mesmo hoje, nos atentemos ao que ocorreu, as pessoas não foram operadas e melhoraram, e isto ocorreu simplesmente porque havia a expectativa de que saúde iria melhorar.

expectativa não se aplica apenas a produtos, ela também se aplica a estereótipos, e é por isso que todos no Brasil esperam que um americano seja uma pessoa rica e que o alemão seja um gênio da engenharia, mesmo sabendo que em ambos países existem pobres e pessoas que não fazem uma graduação. Não podemos esquecer que os estereótipos não se aplicam apenas à pessoas, isto também vale para empresas, tudo que a Apple faz é inovador, Google idem; e isto é uma arma poderosa, empresas que alcançaram um bom estereótipo podem usufruir disto para angariar as melhores cabeças a preços não exorbitantes ou se dar ao luxo de lançar modas que realmente fazem pouco sentido.

Se lhe fosse perguntado sobre um país que nos salvaria caso uma invasão alienígena ocorresse repentinamente, o que viria a sua cabeça? EUA. Naturalmente é o que você tem visto nos cinemas desde os 10 anos o que criou uma expectativa em sua cabeça. Investir pesado no Cinema Americano não é uma mera questão de ganhar dinheiro, é sim de gerar expectativas e estereótipos em escala mundial.

Tudo que comentei aqui foi retirado do livro cujo autor está no título, naturalmente recomendo a leitura do livro em si, é bem mais interessante e completa que este post, espero que tenha conseguido ler até o final, pois infelizmente ficou longo. Talvez o importante no final de tudo é perceber que possuímos falhas de design e quem as conhece nos trata como humanos de estimação e mesmo que não tirem proveito, acabamos por nos limitar e dificultar nossa vida por conta delas.

Ter consciência destes fatos pode nos ajudar a ter uma vida melhor, priorizar mais nossos objetivos e jogar menos dinheiro, e por consequência tempo fora. Para os mais humorados, recomendaria tentar infringir algumas das normas sociais na convivência com os familiares ou observar os colegas e as pessoas em seu ambiente de trabalho ou shopping, assim como é engraçado ver um cachorro fazer cachorrices, é também muito divertido observar o Ser Humano fazendo suas “macaquices”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s