Capitalismo

Deixe a teoria de lado, vamos à prática.

“No capitalismo o Homem explora o Homem. No comunismo temos o exato oposto.” [John K. Galbraith]

“O capitalismo, fundamentalmente, é um sistema econômico que promove a desigualdade.” [Annalee Newitz]

“O debate histórico acabou. A resposta é capitalismo de livre mercado.” [Thomas Friedman]

O Capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e operação direcionada ao lucro. Suas principais características incluem a propriedade privada, acúmulo de capital, trabalho assalariado, liberdade de transação, sistemas de preço e mercado competitivo.

A definição acima, retirada da Wikipedia, apesar de simples e rasa, traz algo essencial para o debate econômico da nossa atualidade: o fato de que o Capitalismo não se trata de uma entidade, instituição, um Deus. Estamos acostumados, em nosso cotidiano, a personificar o Capitalismo mesclando-o com a essência, nem sempre virtuosa, do Ser Humano; enquanto o mesmo não passa de uma ideia, que assim como qualquer outra, ao ser colocada em prática é submetida as mais diversas provações.

Neste artigo vamos analisar alguns dados sobre o Capitalismo, todos eles retirados do Livro O Capital no Século XXI de Thomas Piketty, naturalmente as conclusões do autor não serão repassadas, apesar de que alguns comentários podem ter sido diretamente influenciados. O livro em si é muito rico e pertinente, contudo, sua parte final, que busca, mesmo que de forma humilde, trazer as soluções para o malévolo Capital através de impostos é um abuso da boa-fé do contribuinte, principalmente àqueles que possuem a certeza de que o Estado nada mais é do que uma extensão, o poder social, do Capital.

A ideia principal é concentrar-se nos dados para entender qual o resultado alcançado com séculos de “livre mercado”. Confesso que muitas coisas me espantaram, algumas de  forma positiva, outras nem tanto; mas posso afirmar que de maneira geral tinha uma visão e expectativa macro bem pior para o modelo, que por sinal está longe do idealismo que o originou, mas certamente se encontra ainda mais distante do escrutínio e demonização ao qual é submetido.

CONCEITOS BÁSICOS

Seria difícil entender o todo de um sistema complexo, sem antes compreender suas partes básicas, o mesmo vale para a organização do mercado e o sistema Capitalista no qual vivemos. Portanto vamos iniciar buscando entender os dois conceitos mais básicos deste modelo, pelo menos quando falamos sobre a parte financeira, no qual vivemos.

O primeiro e mais importante componente naturalmente se trata do Capital; que pode ser simplificado a resumido como a riqueza acumulada, ou seja, tudo aquilo que alguém acumulou durante toda sua vida; independente se este bem é uma casa, um carro, uma empresa, metais preciosos, dinheiro ou um saldo positivo em sua conta bancária.

Muitos costumam diferenciar quanto ao Capital acumulado por pessoas físicas, pessoas jurídicas, instituições não governamentais, instituições filantrópicas ou até mesmo uma riqueza pública (que como vamos ver mais adiante é ínfima e pode ser desprezada). Neste artigo não será debatido este detalhe, independentemente da forma legal que a riqueza é classificada, o resultado é único, seu acúmulo inevitavelmente é direcionado às mãos de alguns cidadãos.

O segundo componente do sistema Capitalista se trata da Renda; que consiste no valor ganho em um determinado período. Por questões de relevância vamos classificar a Renda em dois tipos: Renda do Trabalho e Renda do Capital; a primeira é o valor ganho com o trabalho, ou seja, resultado do salário enquanto o segundo é o valor ganho como retorno do Capital investido.

Naturalmente a Renda total de uma vida deve ser maior que o Capital, uma vez que o segundo é o resultado da Renda menos os gastos; ou seja, em um mundo meritocrático, todos nasceriam com $0,00; trabalhariam, acumulariam riquezas durante sua juventude e as gastariam durante sua aposentadoria assim voltando à estaca zero no final.

Existe uma forte relação entre Renda e Capital, que veremos mais a frente; por enquanto é válido ressaltar que um dos motivos para se acumular Capital, consiste em garantir uma renda extra adicional à renda do trabalho. Este desejo, arriscaria a dizer de muitos, de não ter que trabalhar ou trabalhar menos para se poder viver apenas da renda é o que chamamos atualmente de rentismo, que praticamente se tornou um desejo, e paradoxalmente um palavrão, a nível mundial.

O gráfico abaixo mostra a razão Capital / Renda  ao longo de vários séculos para algumas das principais economias do mundo. Nele é possível perceber que o Capital acumulado girava em torno de seis a sete vezes a Renda anual, valor este que caiu drasticamente durante o período das Grandes Guerras e tem sido retomado gradativamente desde então. Em resumo, podemos afirmar, que, atualmente, na média, a população de uma nação possui um Capital de quatro a cinco vezes sua Renda anual.

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ECONOMIA MUNDIAL

Deixemos a economia de lado e avaliemos uma simples fórmula matemática de crescimento cumulativo, ou seja, um modelo onde se cresce a taxa constantes uniformes durante um período. O gráfico abaixo ilustra como o crescimento cumulativo se aplicaria a países durante um século que tenham crescido a taxas de 1% até 10%; o mais importante a se observar é que com o passar do tempo a curva se torna mais íngreme, o que permite uma desigualdade relevante, e até mesmo preocupante, com o passar do tempo.

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Por exemplo, um país que possua um crescimento econômico consistente de 1% ao ano durante um século vai ver sua renda aumentar em 180%, enquanto um país que cresce a taxas 7% durante duas décadas teria sua economia incrementada em 300%. Mesmo que exista uma grande diferença em ambos os exemplos é inegável que o resultado do crescimento é animador em qualquer um dos espectros.

Contudo não nos iludamos, pois, um perigo reside neste modelo, e este consiste no fato de que quem cresceu mais rápido pode utilizar de sua Renda excedente para adquirir a Riqueza de quem cresce de forma mais tímida, e como o Capital por sua vez gera Renda a desigualdade, passa a crescer de forma ainda mais desproporcional.

Voltando ao debate econômico através do conceito de crescimento cumulativo é fácil perceber como a sociedade de hoje, mesmo crescendo a taxas médias anuais ínfimas é desproporcionalmente melhor que a sociedade do passado. O gráfico abaixo traz duas informações relevantes.

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A primeira consiste no fato de que o crescimento mundial médio sempre foi menor do que 1% durante milhares de anos, e que com a chegada da Revolução Industrial este aumentou para algo em torno de 2% o que caracterizou no dobro do aumento da produtividade.

A segunda é menos animadora, e demonstra que esta produtividade atingiu seu pico no período Pós-Guerra, não por menos, o mundo civilizado da época fora destruído e precisara ser reconstruído; e que agora estamos em um processo de normalização voltando para um crescimento econômico mundial produtivo em torno de 1% ao ano.

Historicamente, o crescimento econômico mundial esteve intimamente relacionado ao crescimento da sua população. Apesar de soar demasiadamente humilde, o fato é que toda nossa inteligência, inventividade e inovação não são capazes de tornar as pessoas do mundo produtivas ao ponto de fazer com que a economia cresça de forma amplamente desproporcional quando comparada a sua taxa de natalidade.

E como existe uma estimativa de que a taxa de natalidade vai diminuir ainda mais neste século, podemos e devemos nos preparar para taxas de crescimento ainda menores que as já percebidas. O gráfico abaixo ilustra o crescimento populacional desde os primórdios até os dias atuais com uma pitada de estimativa exotérica calculada pelas Nações Unidas.

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Pode ser uma mera casualidade, mas o crescimento ou decrescimento econômico este intimamente ligado com a taxa de natalidade, naturalmente com uma defasagem de por volta 20 anos, período no qual um recém-nascido atinge um nível satisfatório de produtividade em sua fase adulta.

Como citamos anteriormente, países que cresceram a taxas mais rápidas no passado puderam utilizar parte desta Renda para adquirir (conquistar ou roubar) Riquezas em outras localidades do Globo; chegando ao extremo mundial em que um conjunto de pequenos países Europeus eram responsável por controlar praticamente toda a Riqueza do planeta.

Contudo a “Lei Natural do Crescimento”, onde o crescimento econômico está intimamente ligado ao crescimento populacional está puxando o mundo de volta à sua normalidade. Os gráficos abaixo mostram respectivamente a produção mundial da Renda separado por continente e sua população total; é fácil perceber que a Ásia e África tinha uma produção e renda mundial proporcional ao tamanho de sua população, e que esta inércia econômica fora quebrada durante a Revolução Industrial, permitindo que Europa e América praticamente tomassem para si mais que 70% de toda capacidade produtiva do Planeta.

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Vai ser difícil a digestão, mas o fato é que a Revolução Industrial foi uma das maiores propulsoras da desigualdade econômica mundial, ela permitiu, através da Tecnologia que nações com uma população mínima alcançassem uma produtividade desproporcional. O que leva ao fato de que não é o Capitalismo o principal agente causador da desigualdade e sim a Tecnologia, inventividade e criatividade do Homem.

Sei que é difícil absorver o impacto e tentar negar ao máximo, ainda mais para alguém com formação superior e que atua de forma criativa e inventiva. Mas o fato, simples e claro, é que o resultado do nosso trabalho é permitir o aumento de produtividade e o fruto deste trabalho é adquirido quase em sua totalidade por aqueles que detém o Capital.

Não por menos, existe uma unanimidade mundial, de que apenas a Educação e a Transferência de Tecnologia através da globalização são capazes de alçar um país a voos mais altos. Mesmo que este pensamento uniforme dificilmente seja colocado em prática por motivos até então desconhecidos mas imagináveis, não significa que o consenso inexiste.

Voltando aos dados de desigualdade entre os continentes, é possível perceber facilmente que temos na Europa e América as classes mais abastadas enquanto a Ásia e África concentra grande parte da população pobre. Infelizmente os dados dos quais dispomos não separa a América entre Norte e Sul, tampouco a Europa entre Ocidente e Oriente. Contudo é fácil perceber que a retomada do crescimento Asiático e Africano estão colidindo diretamente frente ao crescimento econômico Americano e Europeu; e obviamente antes de atingir em cheio os países mais desenvolvidos irão primeiramente impactar as já comprometidas estruturas da América Latina e Europa Oriental.

De fato, o que os indicadores econômicos mostram, é que este movimento de retomada já começou, o que é possível perceber no gráfico abaixo. Este por sua vez, indica a desigualdade mundial entre os continentes ricos e pobres e que uma convergência está sendo retomada resultando em um fluxo de rendimento e capital para nossos companheiros dos continentes menos afortunados.

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Tudo isto parece extremamente engrandecedor e excitante. Imaginar que o próprio sistema Capitalista está passando por uma mutação onde mundo será transformado em um lugar mais igual é de decepcionar qualquer “esquerdista intelectual”. Contudo o que pouco se percebe é que as nações mais ricas e detentoras de grande parte do Capital mundial continuarão a utilizá-lo para manter seus rendimentos anuais e consequentemente sua democracia e seu estado de bem-estar.

O resultado mais provável de toda esta movimentação será uma diluição da Riqueza e Renda mais acentuada dos países emergentes para os pobres e em doses menores dos países Ricos para os Pobres, ou seja, existe um grande risco de se ver uma retomada a políticas protecionista dos séculos XVII e XVIII onde a integração mundial era mínima e o crescimento mundial ainda menor e naturalmente ao xenofobismo e menor integração entre as culturas e as nações.

CAPITAL PÚBLICO

Apesar de relevante ter dados e indicadores mundiais em um mundo Capitalista, também importante é enxergar como o Capital e a Renda são distribuídos de forma geral dentro de cada nação. E o que podemos perceber depois de séculos de observação é que, de maneira contrária aos que muitos pensam as nações tem caminhado para um modelo onde riqueza pública é praticamente nula, ou seja, o Estado com o qual convivemos apesar de possuir grandes taxas de impostos (veremos isto mais abaixo) pouco as utilizam para acumular Capital, deixando tal façanha apenas para seus cidadãos.

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Nada mais sensato, afinal de contas não faz sentido aplicar altos impostos de forma generalizada, penalizando a economia e levando à margem de uma vida decente sua população para que bens possam ser acumulados e guardado no fundo de um baú. Lembremos que o Estado vive de impostos, e estes são fontes de receita eternas, o que torna inútil o acúmulo de Riqueza ou Capital para posterior geração de renda.

Algo relevante sobre informação do baixo acúmulo de Capital por parte dos Estados está no fato de que independente de passar por breves oscilações devido a ideologias governamentais, um modelo de estatização é sempre temporário, pois o que se percebe é que, inevitavelmente, os países acabarão por privatizar seus bens, o que traz grandes oportunidades de investimento para quem detém o Capital Privado.

Pode-se concluir também, que por não possuir reservas, o Estado frequentemente recorrerá ao setor privado para obter empréstimos que permitirão investir em um plano nacional, o que mais uma vez favorece ao Capital Privado que perpetuamente desfrutará de uma fonte de renda sem a necessidade de trabalhar. Como um empréstimo público só pode ser pago com impostos, o processo de endividamento de um Estado, seja por qualquer motivo, nada mais é do que, no futuro, transferir dinheiro coletados dos impostos para a classe detentora do Capital.

CAPITAL E RENDA PRIVADA

Agora que sabemos que o acúmulo de Capital ocorre quase que exclusivamente na esfera privada, é importante entender como a Riqueza tem se distribuído ao longo dos séculos em países desenvolvidos. O gráfico abaixo, possui indicadores da França, contudo estes são similares a de outros países Europeus como Reino Unido, Alemanha, Suécia e até mesmo dos Estados Unidos. Nele é possível perceber que os 10% mais ricos detinham no início do Século por volta de 80-90% de toda Riqueza, enquanto os 1% mais ricos detinham por volta de 50-60% desta. Este percentual caiu no período Pós-Guerra e se estabilizou na casa dos 60% para o décimo mais rico e 25% para o centésimo mais rico.

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Não poderíamos perder a oportunidade de caçoar nossos queridos amigos libertários franceses, que mesmo após a Revolução Francesa, famosa por desmantelar o Absolutismo, enforcar Aristocratas e trazer ao âmbito social os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade; tendo em vista que algumas décadas após a Revolução tínhamos uma Riqueza tão concentrada quanto possível, muito provavelmente, o que a Revolução conseguiu, foi reduzir o naco que os 1% detinham, fazendo com que este fosse redistribuído para a classe logo em seguida no topo da pirâmide.

Deixando a Revolução de lado, é fácil perceber o quanto o Capital é concentrado, e o quanto mais concentrado se torna quando mais se aproxima de uma pequena parcela da população extremamente rica. Ter 10% da população detentora 60% de toda Riqueza é permitir que 10% da população tenha uma Riqueza seis vezes maior do que a média; quando vamos para o 1% da população mais rica que detém 25% de toda Riqueza, estamos falando de um grupo que possui uma Riqueza em média vinte e cinzo vezes maior que a média. Em resumo o que temos é que 40% de toda Riqueza acumulada na França está com 90% da população, o que sugere que grande parte desta população não tem reserva alguma.

Até aí, ainda poderíamos pensar: Qual o problema disso? Se a pessoa fez por merecer sua riqueza, nada mais justo. Contudo o que o gráfico abaixo nos traz é que atualmente 70% das rendas são advindas do trabalho enquanto 30% vem como espólio do Capital. Ou seja, o acúmulo deste permite que o indivíduo possa ter uma Renda superior ao resultado do trabalho de muitos.

Felizmente estamos em níveis ainda satisfatórios, pois o rendimento do Capital é bem menos relevante que a renda obtida do trabalho para o resultado de uma sociedade, mas só de imaginar que eles quase se igualaram durante a Revolução Industrial e que estão reduzindo a diferença novamente, praticamente traz a perspectiva de que o trabalho possa perder importância e acumular Riqueza se transformaria no maior propulsor da prosperidade financeira, um modelo social naturalmente insustentável.

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Mais uma vez, os dados deste gráfico apesar de representarem a França é bem semelhante a grande parte dos países desenvolvidos quando se considera uma série histórica a partir da década de 1970, toda Europa possui um comportamento similar à série francesa e somente os EUA possui certa diferença na série mas com valores semelhantes quando comparados à luz da atualidade.

O país que um dia fora a nação das oportunidades e da equidade teve no início da sua história uma concentração de riqueza bem menor que a Europeia, mesmo porque era uma país novo cuja força de trabalho em grande parte adivinha de imigrantes. Podemos afirmar sem medo que os EUA há tempo deixaram de ser a terra de oportunidades que um dia foram, contudo, seu passado glorioso ainda reflete positivamente nos dias atuais.

Como estamos falando dos EUA, vamos avaliar como a distribuição de Renda (e não mais do Capital) se posiciona no país, já que a distribuição de Capital como já vimos é absurdamente desproporcional. O gráfico abaixo traz inúmeras informações, vamos falar delas em breve, concentremos inicialmente na informação explicitamente disponível; a de que o centésimo mais rico detém 20% de toda renda, enquanto os próximos 4% mais ricos detém 16% de toda renda e por fim os próximos 5% mais ricos detém cerca de 12% da riqueza. Ou seja, se somarmos os 10% mais ricos nos EUA, teríamos uma concentração de renda na ordem de quase 40%.

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Felizmente a distribuição de Renda é bem menos desigual que a distribuição da Riqueza; a primeira é por volta de 40% de toda renda para os 10% mais ricos enquanto a segunda gira em torno de 60%. Possível perceber também que os choques econômicos como a Grande Depressão de 1929, o estouro da bolha das empresas .COM em 2000 e a Crise Financeira de 2008 afetam diretamente as fortunas do centésimo superior, pois muitos possuem grade parte do seu rendimento advindo do retorno sobre o Capital, onde parte dele está em ativos líquidos como ações e outros papéis financeiros.

Outra informação importante, é que durante um período de quase 50 anos houve um equilíbrio na renda conquistada pelo centésimo superior, os 4% mais ricos e depois destes os 5% mais ricos. Isto nos mostra que reduzir a desigualdade não afeta necessariamente o avanço tecnológico e criativo de uma nação, uma vez que os EUA durante a década de 50 até 90 estiveram entre as economias que obtiveram melhor desempenho.

Não se pode, também, deixar passar desapercebido que o nível de contração de renda está se aproximando dos níveis da Grande Depressão, o que tem levado muitos economistas a acreditarem que este nível de concentração é um teto para que se tenha uma economia desigual sustentável, qualquer valor acima disso empurra as camadas menos afortunadas para uma incapacidade tão grande de consumo que não se pode esperar outra coisa senão crises financeiras de grande profundidade seguidas de grande intervenção estatal.

Relevante que quando o assunto é desigualdade de Riqueza, tanto Europa quanto EUA são bem similares, mas quando falamos de desigualdade de Renda o mundo desenvolvido se divide. Existem países que estão permitindo que a desigualdade de renda aumente para os níveis da Revolução Industrial, enquanto outros tentam evitar que as mazelas do período liberal do passado voltem a tomar forma. E é exatamente isto que o gráfico abaixo nos traz.

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O assunto de acúmulo e desigualdade do Capital, bem como o da desigualdade de Renda, além de moral possui um pano de fundo também econômico. Tentar convencer o mundo que uma concentração desigual como a que foi vista no período de Liberalismo exacerbado, e que está tomando forma novamente, não é saudável porque moralmente é incorreto dificilmente vai alcançar o resultado desejado.

Utilizar de ameaças, como a da Revolução Francesa, em que uma população faminta e satisfeita pôde derrubar regimes consolidados instaurando uma política de sangue e terror pode surtir um efeito reflexivo, mas por pouco tempo, pois como já vimos, mesmo a Grande Revolução Francesa em pouco mudou a distribuição da Riqueza.

A importância deste estudo está no fato de que historicamente a taxa de renda obtida através do Capital é maior do que a taxa de crescimento das nações, o que por consequência permite a quem detém o Capital um aumento de riqueza maior que o crescimento do país, o que matematicamente torna impossível um crescimento contínuo e perene.

Em uma economia onde o Capital consome o dobro da riqueza extra gerada através do aumento da produtividade o único resultado só pode ser uma estagnação econômica pois atingir-se-á um limite onde ninguém mais pode consumir os bens produzidos, ou na pior das hipóteses todo capital e renda seria concentrado em uma única pessoa.

O gráfico abaixo nos mostra exatamente isto, como o rendimento do Capital tem sido maior que o crescimento nacional, mesmo que considerando o rendimento livre de impostos, o fato é que este gera mais valor que o aumento de produtividade. E o máximo que os impostos sobre grandes fortunas podem fazer é redistribuir o acúmulo de Capital entre outras camadas sociais da nação ou então investir ainda mais em um Estado de Bem-Estar Social. Mas em nenhum caso existe a garantia de que a produtividade ou o crescimento da economia real de fato ocorrerá.

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Ou seja, estamos fadados a viver em um futuro onde o acúmulo de Capital gera instabilidades econômicas forçando a uma descentralização momentânea para que o ciclo volte a se repetir indefinidamente. Isto, pelo menos, até que uma guerra de proporções mundiais entre em ação destruindo a Riqueza das nações e por consequência forçando os países a se reerguerem novamente, para depois de um tempo se encontrar no ciclo de instabilidade anteriormente citado. Algo nada animador.

HERANÇA E IMPOSTOS

Sabemos que em um sistema Capitalista a concentração de Riqueza gira em torno de 60% para o décimo superior mais rico, e em torno de 20% para o centésimo mais rico. Mas de onde provém toda esta Riqueza que é concentrada? Seria esta resultado direto do esforço e mérito de um empreendedor? Ou uma mera casualidade que tornam alguns poucos milionários ou porque não, bilionários?

O que o gráfico abaixo mostra é justamente o mais provável, grande parte da Riqueza existente hoje é o resultado de um recebimento direto através de Doações e Heranças. A curva escura até o ano de 2010 mostra o quanto do percentual do Capital existente é hoje herdado, algo que gira em torno de 70%; e apesar de já termos vividos tempos menos meritocráticos onde 90% de toda Riqueza existente era herdada o que podemos concluir é que acumular Riqueza em um sistema Capitalista trata-se de um trabalho complexo, pois grande parte das fortunas é de fato herdada de familiares que a conquistaram pelos mais diversos motivos.

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A partir de 2010 o que se tem no gráfico são simulações, em um mundo onde o retorno do Capital continuaria a se manter em 3% com um crescimento mundial de 1.7%, o que nos levaria ao final do século a uma Riqueza concentrada em torno de 80% composta por heranças e doações.

Já em um cenário um pouco mais catastrófico, caso a economia cresça por volta de 1% e a renda sobre o Capital seja de 5% teríamos uma concentração onde 90% seria resultado direto de Doações e Herança, ou seja, voltaríamos para níveis semelhares a época do Liberalismo econômico da Revolução Industrial.

Relevante notar, mais uma vez, que houve um tempo onde o peso da Herança na Riqueza caiu drasticamente até chegar no seu menor nível, e que este período, mais uma vez segue o período das Grandes Guerras, reforçando mais uma vez o fato de que o maior causador de igualdade em um sistema Capitalista, até o momento, são guerras de níveis mundiais capazes de destruir a riqueza das nações.

Não faz parte deste texto discutir a moral em torno da concentração de Riquezas por pessoas que não batalharam de fato para consegui-la, nem se este Capital pode ser utilizado para perpetuar um modelo de desigualdade social. Contudo é fato que, atualmente, vivemos um modelo social que preza pela meritocracia, onde os detentores do Capital os tenham como resultado direto do esforço e merecimento próprio.

É verdadeiro também que a tolerância para com a Riqueza acumulada através da herança e o rentismo recebido já foram bem menores em tempos não muito distantes. Os gráficos abaixo buscam ilustrar isto. Enquanto o primeiro mostra as taxas sobre heranças, que aumentaram drasticamente nos EUA e Inglaterra durante e após os períodos das Grandes Guerras, o segundo mostra as taxas sobre rendas elevadas. Estes impostos chegaram a níveis de 80% de sobre as heranças e mais de 90% para altas rendas.

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Naturalmente, todo este aumento de impostos não impactou em nada a geração de riqueza, empreendimento e inovação tecnológica que os países alcançaram, muito pelo contrário o período que engloba as décadas de 50 até as décadas de 90 são conhecidos por serem os anos dourados de muitos países da América do Norte e Europa. Foi também durante este período que estes países se utilizaram dos impostos arrecadados para criar um Estado de Bem-Estar social, focado em gerar acesso básico a segurança, saúde, educação e emprego para seus cidadãos.

Contudo, cuidado aos que glorificam este modelo de alta taxação, pois o Estado nem de perto trata-se de uma instituição perfeita, e permitir que este aumente seu tamanho e poder através da arrecadação de impostos pode levar a criar um leviatã que acabaria por sugar algum dia todo poder criativo de uma população. O gráfico abaixo mostra as receitas fiscais, ou impostos recebidos pelos Estados nos países mais ricos, fácil perceber que o Estado passou de um mero arrecadador de 10% de toda renda nacional em impostos para patamares que chegaram a 30% nos EUA e mais de 50% na Suécia.

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Em suma, o que se pode concluir é que os Estados chegaram a ser tão grandes que em alguns casos passaram a ser maior que toda a renda gerada pela população, e que tanto dinheiro concentrado em uma única instituição e entidade pode trazer benefícios como também pode trazer malefícios, isto tudo depende muito da maturidade política e social de cada país.

Outra informação relevante consiste no fato de que a redução nos altos impostos sobre herança e altas rendas não fizeram cessar a arrecadação anual das nações, o que nos leva a concluir que estes impostos foram reduzidos mas novos impostos, muito provavelmente taxando o consumo foram elevados. Ou seja, algo que vem de encontro com o fato de que uma vez que se tenha uma arrecadação elevada e se cria um Estado de Bem-Estar social dificilmente um político ou partido situacional é capaz de abrir mão desta receita colocando em risco o colapso do sistema democrático ou sua continuidade política.

Por fim o que podemos concluir é que esta redução drástica nos impostos sobre as grandes fortunas e heranças, nada mais foram do que um lobby realizado perante congressistas que ao atender àqueles que possuem maior facilidade de acesso as esferas do poder se viram encurralados a aumentar os impostos sobre consumo para manter os benefícios sociais da população ou até mesmo cortando parte destas conquistas.

PALAVRAS FINAIS

O que pude aprender com a leitura de O Capital no Século XXI, juntamente com o Mundo 3.0 de Pankaj Ghemawat é que um mundo Globalizado tende a formar um mundo mais igual, desde que as nações tenham a autonomia e soberania para que construam suas próprias tecnologias ou as compartilhem com países mais prósperos; ao contrário de um mundo onde cada país se feche dentro de suas próprias fronteiras e tente buscar os avanços tecnológicos sem aproveitar todo conhecimento e avanço mundial já conquistado.

Relevante também deixar claro que grande parte da desigualdade que vemos atualmente é o resultado do avanço tecnológico que algumas nações puderam desfrutar em detrimento de outras, ou seja, a tecnologia apesar de trazer grandes avanços para a sociedade possui como efeito colateral o aumento da desigualdade, isto pelo menos durante o tempo em que apenas alguns países ou empresas sejam detentores desta.

Por fim é fato que o maior evento causador da igualdade em todo a história do Capitalismo consiste das catástrofes e consequências das Grandes Guerras, onde ao invés de se promover a igualdade através do crescimento econômico dos mais pobres, o que se percebe é um igualitarismo através da destruição da riqueza dos mais ricos.

Naturalmente este não é o único modelo capaz de forçar a convergência de igualdade existente, é simplesmente o único eficiente experimentado até então; fácil perceber também que altos impostos sobre heranças e rendas elevadas ajuda em muito reduzir a desigualdade entre os cidadãos de uma nação, mas mais uma vez, esta não é conquistada pela promoção da riqueza e renda para os mais pobres e sim pela redução do dinheiro recebido pelos mais ricos, que apesar de parecer uma péssima ideia a um primeiro momento pode se tornar excelente se for utilizada para se criar um Estado de Bem-Estar social que beneficie toda uma população.

Obvio que os altos impostos em beneficio da criação de um Estado de Bem-Estar social pode ter consequências negativas, pois não existe um consenso mundial e muitos países podem abrir mão da qualidade de vida dos seus cidadãos em detrimento da atração de empresas que gerem renda e riqueza, o que levaria (ou na verdade já levou) a uma corrida fiscal onde diversas nações reduzem seus impostos na esperança de atrair os maiores investimentos, beneficiando cada vez mais quem possui um acúmulo de Capital e pode se aproveitar da mobilidade mundial no fluxo de investimentos.

Gostaria de finalizar o texto lembrando que o acúmulo infinito de riqueza e da renda, por certo, não é algo benéfico ou desejável para sociedade alguma. Contudo repatriar todo este dinheiro, transferindo-o através de impostos para as mãos do Estado trata-se de uma estratégia arriscada, pois o Estado em sua maioria não é composto por políticos de inegável moralidade, senso de patriotismo e comprometimento para com a nação.

Fácil perceber que o melhor caminho para que uma nação se torque rica, próspera e socialmente benéfica, se reduz a ter uma população educada e criativa, aliada a um Estado comprometido e empático somado a um percentual de cidadãos empreendedores e inventivos capazes de entender de forma altruísta que parte da riqueza gerada seja consumida para a construção de uma política de bem comum.

Algo que parece pouco provável, mas que aconteceram em certa medida nos EUA, Japão, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Noruega e Dinamarca; sabemos que a exploração de países menos afortunados também foi preponderante em auxiliar estas nações a se enriqueceram, mas não podemos atribuir todo resultado alcançado a somente este fato, os cidadãos destes Estados com certeza trabalham e tiveram parte deste mérito.

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