Vida Moderna

A migração em massa para as cidades impactou a forma como nos relacionamos.

“Existem olhos em todos os lugares. Nenhum ponto intacto. No que vamos sonhar quando tudo for monitorado? Que todos sejamos cegos.” [Paul Virilio]

“A cidade atingiu o cume da eficiência, em contrapartida exigiu algo em troca de seus habitantes. Que vivessem uma rotina apertada e restrita a um rigoroso controle científico.” [Isaac Asimov, As Cavernas de Aço]

“Toda urbanização empurrada até um certo ponto se torna sub urbanização… Toda grande cidade possui uma coleção de subúrbios. Seus habitantes não vivem, eles meramente habitam.” [Aldoux Huxley]

O Homem viveu por dezenas de milhares de anos em pequenas comunidades, algumas delas se tornaram vilas, cidadelas e em raríssimas exceções uma cidade. Contudo a revolução industrial mudou este panorama, a vida difícil no campo somada com a oportunidade de trabalho nas cidades provocou uma migração em massa.

Enquanto diversos intelectuais se debruçavam sobre como o capitalismo e a revolução industrial impactaria o comércio mundial e a organização do trabalho, o alemão Georg Simmel foi quem primeiro observou como a urbanização estava afetando a forma como as pessoas interagiam socialmente, e que para entender a vida moderna seria necessário entender como as cidades são organizadas.

Henri Lefebvre  comentou que a vida nas grandes cidades não fora um processo de escolha e sim uma imposição do Capital, mas que isto não significaria que as cidades não poderiam ser moldadas em espaços sociais para atender a necessidade humana, sendo responsabilidade da população lutar para que as cidades possuíam características mais comunitárias e menos individualistas.

Ao se debruçar sobre as formações sociais e impactos da urbanização, sociólogos americanos começaram a relacioná-los à impessoalidade e individualismo bem como a formação de grupos sociais coesos e segregados entre si, cuja solução para um melhor relacionamento existiria em encontrar a adequada e mais efetiva forma de comunicação.

No final do século XX as cidades começaram a se transformar novamente, onde a industrialização baseada no chão de fábrica e linha de produção perdeu força para os setores financeiros, tecnológicos e de serviços. Cidades industriais deixaram de ser uma constante e o que se observou foi a formação de centros comerciais que mais uma vez impactou na sociedade criando um modelo de consumismo semelhante as redes de fast food e as fantasias criadas de propaganda difundidas pelo padrão Disney.

Hoje o campo se tornou algo nostálgico, visitar fazendas para conhecer seus hábitos e os animais se tornaram programas familiares para crianças nascidas na “cidade grande”. Certamente a vida no campo pré-revolução industrial de nada se assemelha com as fazendas tecnológica dos dias de hoje.

A transição do campo para a cidade marcou uma geração exigindo uma adaptação sem precedentes até então. Contudo o que vivenciamos agora são gerações já formadas em cidades, onde o plano urbano de relacionamento está restrito a encontros no centro comercial ou bolsões criados nos subúrbios.

A pandemia do COVID19 adicionou uma outra perspectiva ao processo de urbanização, a de que as pessoas podem produzir e consumir em um mundo completamente digital. E apesar de estarmos falando de uma digitalização que certamente não se aplica a maior parte da população, é a que se aplica a parte economicamente “interessante”.

Com a comprovação de que o mundo digital é mais eficiente, barato e atualmente possui menos concorrência, é certo que o Capital explorará este modelo. A questão então se tornará qual impacto desta transformação digital nos relacionamentos em um mundo onde as redes sociais se tornarão cada vez mais a principal forma de se comunicar.

Pode ser que migremos em um período de 200 anos, de um modelo milenar de relacionamento comunitário físico para um modelo majoritariamente digital, ao qual fisiologicamente não somos adaptados.

Penso que o Homem por natureza confina e escraviza todas as espécies dos planetas, inclusive a própria, com a criatividade mental única de achar que assim melhora a vida de todos, uma vida profissional digital com o tempo de lazer concentrado na Internet nos transformará na mais perfeita máquina de produção e consumo.

Gosto de brincar que a função do Homem no mundo moderno é dar leite, claro que isto é minimizar, pois também somos pressionados a consumir o queijo. E que uma vaca, se fosse consciente jamais olharia seu par confinado, tomando hormônio para produzir mais e seria seduzida pelo avanço tecnológico de seu estábulo ou a versão da tag em sua orelha. Como espécie somos de fato, especiais.

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