Sharon Zukin

Morar em um Loft é como estar em uma Vitrine.

“Muitas das peculiaridades de Nova Iorque são consequência de suas construções, não das pessoas.” [Sharon Zukin]

“Seria a ideia de autenticidade somente aquela que preserva a cultura das elites?.” [Sharon Zukin]

Professora de Sociologia no Brooklyn College e CUNY Center recebeu diversas premiações por seus trabalhos sobre urbanização. É autora de livros sobre cidades, cultura e consumo e pesquisadora em como a gentrificação impacta a vida urbana nas grandes cidades.

A forma como a cidade é organizada impacta profundamente em como as pessoas nela vivem se interagem, inclusive mudando aspectos culturais e econômicos. Na década de 1980 após quase dois séculos de industrialização Ocidental muitas das fábricas que ocupavam as cidades enfrentaram dificuldades econômicas e fecharam suas portas devido a mudança de manufatura para países com uma mão de obra mais barata e legislação mais favorável.

Estes enormes galpões abandonados, caracterizados por “cômodos” amplos e abertos com grandes janelas favorecendo a luminosidade ficaram conhecidos como Loft, e passaram então a ser alugado por pessoas de baixa renda que viviam com suas famílias além de artistas, que devido a crise econômica, não possuíam rendas suficientes para custear uma habitação regular.

Segundo Sharon Zukin, os artistas que para lá migraram criaram um ambiente cultural, trazendo consigo a mensagem de que ocupar uma manufatura – transformando antes um espaço hierárquico e de repetição em algo criativo e informal – era uma forma de empoderamento e modernidade; não demorando para que estes bairros se enchessem de cafés, bares, restaurantes e se tornassem atrações turísticas.

Contudo algo nem tão inesperado aconteceu, a manufatura antes abandonada, agora um bairro boêmio “cool” se tornou alvo de trabalhadores de classe média alta que queriam viver toda aquela liberdade, assim os preços dos aluguéis e imóveis acabaram por aumentar forçando os artistas e a classe trabalhadora que lá viviam a se mudar, enquanto os bares, cafés e restaurantes permanecem abertos pois o aspecto econômico já havia ganho vida própria.

Os detentores de capital ao perceberem a oportunidade de adquirir estas construções por preços baixos e transformarem-nas em centros residenciais atrativos para uma nova classe com poder aquisitivo acabar por gerar um negócio lucrativo não importando se para tal é necessário descaracterizar toda a história lá construída.

Todo este processo de declínio, ocupação, transformação e extinção do passado foi denominado gentrificação e busca chamar atenção em como a cultura dominante, ou seja, de quem possui dinheiro, acaba por se tornar a única forma de autenticidade esmagando qualquer outro arranjo organizacional existente, inclusive podando o aspecto cultural e vibrante da mistura de pessoas que lá vivem.

A autora também chamou atenção para como a gentrificação é apenas mais um resultado da cultura de consumo na qual estamos inseridos, onde um conjunto de grandes corporações através do marketing e propaganda criam uma visão única de autenticidade e a utiliza para impactar as classes mais altas forçando o modelo para as camadas mais baixas, inclusive marginalizando quem nela não se enquadra.

Em seu último trabalho Sharon Zukin citou como a gentrificação tem sido catalisada, onde mudanças que antes levavam décadas são agora realizadas em anos, cabendo ao detentor do capital a decisão de qual área urbana investir deixando que as pessoas propaguem o hábito de consumo enraizado, o que culmina em uma valorização comercial e marginalização dos residentes originais. Por fim mencionou que cabe aos planejadores urbanos definir políticas positivas que permitam a mudança preservando o original.

Tenho várias experiências pessoais sobre o processo de gentrificação, a primeira delas foi em São Paulo, onde vivia próximo ao Mackenzie onde a Rua Maria Antônia regrada de bares trazia um ambiente vivo e energizante enquanto a Rua Augusta era um misto que incluía de pastores evangélicos a transexuais, dos botecos mais medíocres a restaurantes tematizados.

Em menos de sete anos a Rua Augusta se transformou, a nova sensação do momento – as Hamburguerias haviam tomado conta, os puteiros cada vez mais se tornavam “barzinhos” enquanto os aluguéis baratos e atrativos ficavam caros devido a migração de quem trabalhava na Avenida Paulista. A mudança era inevitável, com o preço dos aluguéis subindo, encontrar um lugar novo para um recém-formado que dividia apartamento era algo obrigatório.

Quando visitei Santiago no Chile, passei alguns dias e noites no Bairro Bellavista, onde é possível observar a diferença entre o artístico raiz e boêmio que estava sendo substituído pelos estabelecimentos já “gentrificados” (Pátio Bellavista na foto acima), também poderia citar os albergues na parte Oriental de Berlim e como este processo se aplica praticamente a todos os centros antigos de praticamente toda capital europeia além de cidades turísticas, como o caso de Nice na França.

Outro dado implícito importante sobre a gentrificação está no investimento em imóveis, as melhores oportunidades estão em adquirir imóveis nos bairros que estão começando o processo de transformação, seja adquirindo os primeiros novos empreendimentos ou as casas caindo aos pedaços que posteriormente se tornarão comércios ou darão espaço ao novo.

Para quem está procurando um lugar para morar vale a pena uma atenção pois aquele bairro conhecido por ser ruim pode ser o próximo da lista a receber uma injeção de capital e poder adquirir um imóvel por um preço mais em conta pode ser a porta de saída de um financiamento caro e interminável

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s