Jeffrey Alexander

A sociologia tirou a cultura do centro do debate.

“Estamos longe de sermos sensatos, racionais ou sensíveis como nos vemos.” [Jeffrey Alexander]

“A ‘americanização’ e ‘europeização’ do Holocausto, sem uma sincera reflexão e autocrítica ao colonialismo e imperialismo, transformaram os discursos em retóricas.” [Jeffrey Alexander]

Nascido nos EUA, lecionou sociologia em Yale e é considerado o fundador da Sociologia Cultural, um ramo da Sociologia que vem conquistando espaços sendo um dos principais promotores de sua metodologia e conceitos por todo o Mundo.

Jeffrey Alexander buscou quebrar a narrativa de que a Cultura seria uma consequência do mundo material e de como vivíamos, sendo ela na verdade uma característica autônoma. Segundo o autor a visão Marxista de que a Cultura era um reflexo da divisão das classes, cultivada e aperfeiçoada para atender a classe dominante, era muito simplista uma vez que a cultura moldava também a sociedade.

A visão racionalizada de Max Weber também não era verdadeira uma vez que a Cultura Ocidental ainda encontrava grande amparo e sustentação nas emoções, e isto não apenas a nível individual, mas também nacional ou de massas.

Na visão do autor a Sociologia Cultural possuía três pontos principais.  O primeiro de que a cultura era dívida entre uma parte imaginária, racional ou irracional, e uma parte real, consequência direta da vida material e real que vivemos e das nossas limitações físicas.

O segundo ponto consiste no fato de que a Cultura deveria ser visto como um texto, cujas interpretações estão intrinsicamente ligadas a quem está tentando interpretá-la. Portanto, para entender uma Cultura seria necessário vivenciá-la ou entendê-la pelos relatos de quem nela está inserido.

O terceiro ponto destacava a existência de estruturas culturais, estas geralmente representadas por um conjunto de símbolos que eram utilizados para dar significado ao Mundo. Grande parte dos indivíduos não possuíam consciência ou refletiam sobre a existência destes símbolos apesar de terem grande parte de suas ideias e ações moldadas por eles.

O sociólogo defendia que uma das funções da Sociologia Cultural consistia em expor tais símbolos para que estes fossem mais bem compreendidos, sendo esta uma maneira efetiva de auxiliar os indivíduos a questionarem o que fazem ou o que pensam. E para que a sociologia consiga interpretar estes símbolos de forma correta é necessário ter a consciência da visão ocidentalizada que se era atribuída as diversas culturas do Mundo.

Exemplificou suas teorias em um debate sobre o Holocausto Nazista que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o autor a visão de que o Holocausto era um grande símbolo do sofrimento humano e da sua capacidade de realizar maldades se tratava de uma das possíveis interpretações culturais das diversas outras que poderiam ter sido produzidas.

A seu favor, argumentou que logo após o fim da guerra o Holocausto não era visto como é hoje, devido a discriminação que Judeus Europeus sofriam, os relatos eram vistos como suspeitos e sem a devida empatia. Isto começou a mudar quando os Judeus passaram a se integrar às comunidades existentes, seus relatos ganharam mais vozes e apoio, e foi a partir de então que uma releitura do Holocausto foi realizada e narrada da forma como conhecemos hoje, ou seja, um dos maiores atos de crueldade da humanidade.

A sociologia cultural tem ganho muitos adeptos na interpretação e leitura da sociedade e tem sido utilizada em diversos outros eventos históricos capazes para entender a comoção social, como por exemplo os atentados terroristas nos EUA ou acidentes que destruíram monumentos históricos.

Interessante o trabalho do autor, a crítica a racionalidade de Weber certamente é muito válida e o que não faltam são exemplos das reações emotivas e irracionais adotadas pelas comunidades independentemente de condição financeira, tecnológica ou nível educacional.

A crítica a Marx sobre como a superestrutura social modela a cultura tem seu amparo, apesar de óbvio a discrepância quanto a capacidade na influência cultural quando se compara o Capital contra o Trabalho. Diferença ainda mais perceptível em um Mundo onde os avanços tecnológicos na comunicação em massa e entendimento da psique individual e coletiva são utilizados por quem tem dinheiro.

Expor o bias “Ocidental” ao interpretar a cultura de outros pontos do mundo foi bem pertinente e pode ser estendido para outros casos. Muitas vezes “julgamos” outros países e povos sem sequer nos darmos ao trabalho de perguntar-lhes o que de fato o Evento significa para eles.

Não podemos ler a vida dos outros através de nossas percepções, é como se a Sociologia tivesse que mudar complemente sua análise e passar levar as pessoas mais ao divã do que investir na metodologia científica fundamentada no questionamento, hipótese, proposição, experimentação, validação e conclusão.

Por fim a falta de reflexão sobre nossas próprias vidas. A cultura é algo tão forte que ela passa ser como ar ou como respirar, algo natural e automático, ainda assim de grande relevância e impacto em nossas vidas. E isto explica por exemplo homofobia, valorizar o trabalho árduo em busca de performance mesmo que isto prejudique as próprias vidas, encontrar felicidade no consumo ou o julgamento moralista de pares.

Esta semana estava assistindo uma entrevista do Programa Roda Viva, o entrevistado era Edu Lyra um ativista social que se autointitulou CEO de uma Organização que busca desenvolver áreas pobres, ou Empreendedor Social.

Sem julgar o trabalho que vem sendo realizado, o que no meu ponto de vista pareceu fenomenal. Mas interessante ver a importância em dar uma outra visão Cultural e conotação para o ativismo, trazendo ao mesmo a cara e uma eficiência corporativa pois se torna mais atrativo ao Capital e a sociedade que o valoriza, isto também vem ocorrendo na política através do Partido Novo.

Outro ponto que me chamou atenção na entrevista foi no questionamento da entrevistadora Vera Magalhães. Ela questionou sobre “disrupção do tecido social”, vulgo saques e roubos em massa, caso um projeto de renda mínima não fosse dado as pessoas mais carentes durante a pandemia. E é impressionante entender como o fim do mundo para a classe média está no medo e insegurança em se ver ameaçado e não no fato de que milhões estão morrendo de fome. Isto me parece resultado de uma construção cultural forte ao qual falta questionamento.

Por que consideramos aceitável milhares ou milhões serem privados de se alimentar adequadamente, mas consideraríamos o fim do mundo estas pessoas saquearem mercados em busca de comida? A Cultura é o Papai Noel do Adulto, a Religião do Fanático, por isso a importância de terem seus símbolos expostos. Não para romper com o que existe, mas para trazer consciência das próprias escolhas.

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