Harry Braverman

Quanto mais sofisticados se tornam as máquinas, menos habilidoso se tornam os trabalhadores.

“Marxismo não é hostil a ciência e tecnologia, e sim no seu uso como arma de dominação.” [Harry Braverman]

“A alienação dos trabalhadores se torna problemas de custo e controle em níveis gerenciais.” [Harry Braverman]

Nascido em Nova York em 1920 teve de abandonar a Universidade devido a problemas financeiros. Trabalhou como serralheiro onde percebeu o impacto do capitalismo no trabalhador, se filiou ao Partido dos Trabalhadores Socialistas de onde foi expulso posteriormente fundando a União Socialista e o jornal The America Socialist. Em 1963 finalizou sua graduação e publicou seus estudos.

Seguindo a intuição de Karl Marx e Max Weber quanto a alienação do trabalhador e o avanço do Capitalismo, Harry Braverman realizou um longo estudo para entender como o avanço da automação e do processo de gestão estaria impactando a habilidade dos trabalhadores, tendo as publicada em seu livro “Labor and Monopoly Capital: The Degradation of Work in the 20th Century”.

O primeiro assunto abordado pelo autor foi quanto ao mito de que o treinamento em novas tecnologias ou maquinários consistia em uma nova habilidade a ser aprendida, defendendo que tais treinamentos requeriam dias ou algumas semanas e não tornavam o trabalhador alguém mais habilidoso.

Suas pesquisas também mostraram que uma escolaridade maior, diferente do que se achava, resultava em maior frustração, pois os recém-formados percebiam que o aprendizado das universidades tinha pouca ou nenhuma aplicação em uma companhia compartimentada e automatizada.

Ponderando que o avanço tecnológico abria oportunidades para novas habilidades, atacou o problema da alienação e erosão da capacidade intelectual não era uma consequência do avanço tecnológico, e sim da relação que se criava entre o trabalhador e o meio de produção. Seria necessário rever o modelo de gestão e organização dos processos, principalmente priorizando e delegando aos trabalhadores a autonomia de analisar e aprimorar suas próprias atividades.

O grande problema estaria no processo fabril criado por Frederick Taylor, também conhecido por “Taylorismo”, onde o trabalho seria dividido de tal forma que os trabalhadores se tornariam superespecializados em uma única atividade simples e repetitiva enquanto a definição deste processo, o controle e monitoramento ficariam a cargo dos gestores.

Este modelo era danoso pois separava a concepção da execução, colocando o trabalhador no escuro e em grandes casos totalmente alienado do valor final do seu trabalho. Desta maneira se perdia a noção não apenas do valor do que é produzido, mas também, de qualquer entendimento em como aprimorar suas habilidades para atingir melhores resultados.

O sociólogo também criticou a perpetuação de tal modelo pois assim o trabalhador se tornava menos importante, menos habilidoso e facilmente substituível reduzindo seu valor para a companhia. Isto também impactava negativamente a ascensão social da classe trabalhadora pois lhe tirava a capacidade de desenvolver novas habilidades, suas pesquisas mostraram que tais consequências eram percebidas não somente no “chão de fábrica” mas também eram parte da vida profissional no escritório.

O acúmulo de Capital faz com que menos empresas se tornem cada vez maiores, e neste contexto a alienação do trabalhador se torna ainda maior. Apesar da realidade de que é impossível atribuir a todos trabalhadores a percepção e a visão de alto nível necessária para gerir um negócio, é importante que a empresa delegue a seus compartimentos a autonomia de controlar e gerenciar seu próprio destino.

Tal delegação já ocorre em alguns setores nos dias de hoje, pois muitas empresas têm se tornado tão grande que é humanamente impossível controlar todo o seu aspecto por um corpo de diretores, ainda assim se percebe muito o fato de que o gestor toma posse do “seu compartimento” se tornando o cérebro enquanto todo o resto são meras figuras operacionais e de execução. Existe também os grupos de melhorias contínuas o envolvimento do trabalhador na definição de processos.

Ainda assim estamos longe da representatividade necessária, as empresas são hierárquicas como uma estrutura militar, claro com a diferença de que em algumas o trabalhador é mais estimulado a romper ou se expressar ajudando a atacar improdutividade.

Não é uma questão de reverter a pirâmide colocando trabalhadores para gerir as indústrias, ou nomear pessoas sem a formação ou capacitação adequada para cargos de diretoria executiva ou de conselho. Mas do fato de que uma participação mais plural certamente pode trazer grandes benefícios.

Algumas empresas nas últimas se arriscaram em estruturas descentralizadas e a abertura para contato direto do trabalhador com a diretoria, o que permitiu trazer novos insights e atacar problemas que aumentaram a eficiência. Ainda que tais modelos tratassem o trabalhador como fonte de dados, deixando o de fora da idealização e gerenciamento de suas próprias ideias, eles representaram um grande avanço ao que foi nomeado de inteligência coletiva.

Infelizmente este modelo está perdendo força, pois com o avanço tecnológico e o aumento exponencial na capacidade de adquirir, armazenar e analisar dados o que se percebe é um avanço no degrau da alienação devido a automação, onde a próxima vítima provavelmente serão os gestores mais próximos da operação.

Estes novos gestores não mais terão importância na detecção e gestão de atividades, as ferramentas já fazem isto. Este passa cada vez mais a assumir papel de Lieutenant, ou seja, de quem encoraja e auxilia o time a se mover diante de obstáculos, o que tende a beneficiar mais lideranças técnicas do que a liderança pessoal e empática, uma vez que a primeira tem maior capacidade em auxiliar na resolução do problema.

A mudança da liderança empática para a técnica, apesar de soar meritocrática pode ter consequências ainda mais danosas para o trabalhador, que agora não só é desconectado do valor e propósito de seu trabalho, mas como também pode perder importância diante dos desafios operacionais

O ideal é que a direção de uma empresa possua representantes dos trabalhadores ema alto escalões também trazendo para a discussão suas prioridades, contudo é fácil perceber que o desalinhamento e o conflito minariam qualquer iniciativa, pois o conflito de interesses é claro e grande em diversos momentos. As empresas são em grande parte hoje divididas nos que beneficiam dos lucros e os que são custos, e ponderar a opinião de ambos empacaria o avanço e agilidade das organizações.

Não vamos nem comentar do fato de que a razão de ser de uma empresa deveria ao menos ser seus clientes, e da realidade de que eles não fazem parte no seu dia a dia, sendo muitas vezes tratados como problemas. Imagine alguém se arriscar a ter representantes dos clientes em suas direções e discussões executivas?

No final não tem como não concordar, por mais que empresas e empreendimentos são uma maneira eficiente de produzir riqueza, tecnologia e inovação, a realidade é que elas se tornaram mecanismos cujo principal objetivo é obter lucro cada vez maiores mesmo que isso custe o benefício de quem faz parte de sua comunidade

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